terça-feira, 29 de setembro de 2026
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Codajás: como o açaí transformou a história e a economia do município do Amazonas

Codajás, no Amazonas, é conhecido como um dos principais centros produtores de açaí da Região Norte. A atividade reúne história, agricultura familiar, comércio, cultura e geração de renda para comunidades ribeirinhas.

Codajás é um município do interior do Amazonas cuja história econômica e cultural está profundamente ligada ao açaí. Localizada na margem esquerda do rio Solimões, a cidade se tornou uma das principais referências do fruto na Região Norte e recebeu, em 2023, o título de Capital Amazonense do Açaí.

O reconhecimento não surgiu apenas da fama regional. A produção envolve agricultores familiares, extrativistas, trabalhadores do beneficiamento, comerciantes e transportadores que participam de uma cadeia formada ao longo de décadas. Em 2025, segundo dados da Produção Agrícola Municipal do IBGE, Codajás foi o maior produtor de açaí cultivado do Amazonas em valor de produção, com R$ 85,8 milhões.

Mais do que uma cultura agrícola, o açaí se tornou um dos principais elementos da identidade de Codajás. O fruto está presente no trabalho diário das comunidades, na alimentação, nas festas populares e na imagem que o município projeta para o restante do país.

Origem histórica de Codajás

A formação de Codajás remonta a uma antiga aldeia indígena associada aos Cudaiás, grupo que ocupava áreas próximas aos rios e lagos da região. O território também teve presença dos povos Muras, que circulavam pelas margens e pelos cursos d’água da bacia amazônica.

De acordo com o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos de Codajás, a localidade passou por mudanças administrativas ao longo do século 19. Em 1868, recebeu o nome de Freguesia de Nossa Senhora das Graças de Cudajáz. A freguesia foi instalada em 1870 e elevada à condição de vila em 1874.

A organização municipal continuou a ser alterada por leis e decretos durante o período imperial e os primeiros anos da República. O nome Codajás se consolidou com o tempo, relacionado à denominação indígena Cudaiá. A sede municipal foi elevada à categoria de cidade em 1938, segundo o documento de planejamento elaborado para o município.

Essa trajetória ajuda a explicar a relação entre a cidade e o ambiente em que foi formada. Codajás cresceu em uma região marcada pelo rio Solimões, por lagos interiores, áreas de várzea e deslocamentos predominantemente fluviais. As águas são importantes para o transporte, a pesca, a agricultura e o escoamento da produção.

O ambiente favorável ao açaí

O município está inserido em uma área de clima quente e úmido, com chuvas abundantes e extensa rede hidrográfica. O Solimões e os lagos da região, como Miuá, Badajós, Piorini e Jamacana, fazem parte do cenário em que a produção de açaí se desenvolveu.

Parte significativa dos açaizais está próxima de lagos, furos, paranás e margens de rios. Essa localização facilita o acesso dos produtores às áreas de coleta e permite que o fruto seja transportado por embarcações até a sede municipal ou para outros mercados.

O açaí pode ser obtido por extrativismo, com a coleta de frutos de palmeiras nativas, ou por meio de áreas cultivadas. As duas formas coexistem na Amazônia, mas as estatísticas oficiais precisam ser interpretadas separadamente. O IBGE acompanha o açaí cultivado na Produção Agrícola Municipal e o fruto extraído da floresta na Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura.

Essa distinção é importante porque os números de uma pesquisa não representam necessariamente toda a produção existente. O próprio IBGE observa que o cultivo passou a ser incluído na pesquisa agrícola em período posterior ao levantamento do extrativismo. Por isso, comparações entre séries diferentes devem considerar a origem do fruto e a metodologia utilizada.

De produto regional a atividade econômica central

Durante muito tempo, o açaí foi consumido principalmente na própria região amazônica. O fruto chegava às cidades em períodos de safra e era transformado em polpa por unidades artesanais ou pequenos estabelecimentos locais. Em Codajás, essa atividade passou a ganhar importância à medida que aumentaram a demanda, a organização dos produtores e as possibilidades de comercialização.

O beneficiamento começa com a chegada dos frutos. Depois da seleção e da lavagem, o açaí é processado para a retirada da polpa, que pode ser consumida imediatamente ou transportada em condições adequadas para outros mercados. O trabalho exige rapidez porque o fruto é perecível e perde qualidade quando não é manipulado e armazenado corretamente.

A cadeia produtiva envolve diferentes ocupações. Além de quem planta ou coleta, participam do processo carregadores, barqueiros, trabalhadores de unidades de beneficiamento, vendedores, atravessadores e comerciantes. O Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas já registrou a importância da safra para a economia local e o envio de parte da produção para Manaus.

Em levantamento divulgado pelo Sebrae Amazonas, produtores, apanhadores, batedores, trabalhadores de embarcações e estivadores aparecem entre os grupos envolvidos diretamente ou indiretamente na atividade. O número mostra que o impacto do açaí não se limita ao valor pago pelo fruto: a produção movimenta serviços, transporte, comércio e renda em diferentes etapas.

O Festival do Açaí e a identidade cultural

A relação entre Codajás e o fruto também ganhou expressão cultural. O Festival do Açaí passou a ser realizado a partir de 1988 e se tornou uma das principais manifestações públicas associadas ao município. A programação reúne atividades culturais, exposição de produtos, apresentações e ações ligadas à produção local.

O evento ajudou a ampliar a visibilidade de Codajás e a associar a origem do fruto ao nome da cidade. A partir dessa exposição, comerciantes e consumidores passaram a identificar o açaí de Codajás como um produto com características próprias e ligação direta com o território amazônico.

Em áreas produtoras, festas dessa natureza cumprem mais de uma função. Elas preservam costumes, valorizam o trabalho rural, criam oportunidades de venda e fortalecem a divulgação do município. Em Codajás, a celebração do açaí se tornou parte da memória recente da cidade e da forma como os moradores apresentam sua produção.

Reconhecimento como Capital Amazonense do Açaí

Em dezembro de 2023, uma lei estadual conferiu a Codajás o título de Capital Amazonense do Açaí. A medida formalizou uma denominação que já era utilizada para destacar a importância do município na produção do fruto dentro do Amazonas.

O título tem caráter simbólico e institucional. Ele reconhece a relevância econômica e cultural da atividade, mas não substitui políticas de apoio ao produtor, melhorias logísticas, assistência técnica e investimentos em beneficiamento. A produção depende de fatores como o comportamento da safra, o nível dos rios, as condições de transporte e a capacidade de conservação da polpa.

Indicação Geográfica valoriza a origem

Em março de 2024, o açaí de Codajás recebeu registro de Indicação Geográfica na modalidade Indicação de Procedência pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial. O reconhecimento considera a reputação do produto e sua ligação com a área de origem.

Segundo o Sebrae Amazonas, a documentação apresentada ao INPI destacou as condições de vegetação e clima do município e a importância das áreas produtoras localizadas próximas a lagos e ao rio Solimões.

A Indicação Geográfica pode ajudar a diferenciar o produto, proteger o vínculo com o território e ampliar o valor agregado da produção. Para que o reconhecimento produza efeitos duradouros, porém, é necessário manter padrões de origem, organização dos produtores, controle de qualidade e rastreabilidade. O selo não elimina os desafios logísticos nem garante, sozinho, aumento automático de renda.

O que os números do IBGE mostram

Os dados mais recentes disponíveis na página de produção agropecuária do IBGE mostram que o Amazonas registrou, em 2025, 96.175 toneladas de açaí cultivado, com valor de produção de R$ 250,027 milhões. Codajás apareceu na primeira posição entre os municípios amazonenses em valor, com R$ 85,8 milhões.

A série histórica do instituto indica crescimento do valor estadual do açaí cultivado entre 2021 e 2025, embora tenha havido redução em 2024 em relação ao ano anterior. As oscilações podem estar relacionadas a condições climáticas, volume de safra, preços, área colhida e características do mercado.

Os números também devem ser lidos com cautela. O levantamento do IBGE trata do cultivo e não reúne automaticamente toda a produção extrativista. Além disso, valores de produção não equivalem à renda líquida dos agricultores, pois não descontam custos de transporte, mão de obra, equipamentos, beneficiamento e comercialização.

Desafios para o futuro

A força econômica do açaí não elimina os problemas enfrentados por Codajás. A distância dos grandes centros consumidores, a dependência do transporte fluvial, a perecibilidade do fruto e as variações do nível dos rios influenciam o resultado da safra.

Outro desafio é ampliar a estrutura de beneficiamento e armazenamento. Quanto maior a capacidade local de transformar o fruto em polpa com qualidade e segurança, maior tende a ser a possibilidade de comercialização em mercados distantes. Esse processo também pode reduzir perdas e aumentar a participação dos produtores no valor final do produto.

A assistência técnica é igualmente importante para melhorar o manejo dos açaizais, ampliar a produtividade sem comprometer o ambiente e organizar a produção. Em áreas de várzea, o planejamento precisa considerar as cheias periódicas, que atingem moradias, plantações e caminhos utilizados pelas comunidades.

O futuro da atividade também depende da valorização do trabalho de agricultores e extrativistas. A origem do açaí de Codajás pode ser um diferencial comercial, mas a permanência dessa reputação exige qualidade, regularidade e transparência em toda a cadeia.

Codajás além do fruto

Embora o açaí seja o principal símbolo econômico contemporâneo do município, Codajás também mantém atividades ligadas à pesca, à agricultura familiar e ao comércio local. O fruto divide espaço com outros produtos e com modos de vida construídos a partir das relações entre comunidades, rios e floresta.

A história de Codajás, portanto, não pode ser resumida apenas ao desempenho de uma lavoura. O açaí ganhou centralidade porque encontrou condições ambientais favoráveis, conhecimento tradicional, mão de obra e uma rede de circulação que conectou o município a Manaus e a outros mercados.

É essa combinação de território, produção e cultura que explica por que Codajás se tornou conhecido como o município do açaí no Amazonas. A palmeira presente nas áreas de várzea passou a representar não apenas um alimento, mas também uma fonte de trabalho, um elemento de identidade e uma marca de origem reconhecida oficialmente.