Nhamundá é um município do Baixo Amazonas cuja identidade se formou a partir da relação entre os povos indígenas, os rios e as diferentes etapas de ocupação da região. Localizada no leste do estado, na divisa com o Pará, a cidade tem o rio Nhamundá como uma de suas principais referências territoriais e culturais.
Conhecida por denominações como Ilha Bela da Amazônia e Ilha das Icamiabas, Nhamundá reúne relatos históricos, tradições ribeirinhas e paisagens marcadas por cursos d’água, florestas, lagos e praias sazonais. A história oficial do município registra a emancipação política em dezembro de 1955 e a instalação administrativa em 31 de janeiro de 1956. (sapl.al.am.leg.br)
Onde fica Nhamundá
Nhamundá está situada no interior do Amazonas, na região do Baixo Amazonas. O município fica às margens do rio Nhamundá, curso d’água associado à fronteira entre os estados do Amazonas e do Pará. De acordo com informações institucionais, a distância em linha reta até Manaus é de aproximadamente 375 quilômetros, enquanto o deslocamento por via fluvial é maior. (nhamunda.am.gov.br)
A localização ajuda a explicar a importância dos rios para a vida local. Em uma região onde as distâncias são frequentemente medidas pelo tempo de navegação, os cursos d’água funcionam como vias de transporte, fontes de alimento, referências territoriais e espaços de convivência. A dinâmica das cheias e vazantes também influencia o cotidiano das comunidades e modifica a aparência das margens ao longo do ano.
As origens indígenas do município
Antes da formação administrativa do município, o território já era ocupado por diferentes povos indígenas. A Prefeitura de Nhamundá cita grupos como tcháwhiyána, hixkariana, sákáka, kamáeyana, chiriwiyána, kumuyána, wari condurizes e jamundás entre as populações relacionadas às origens da área. Registros municipais também mencionam os Uabuís, Cunuris e Guaicaris. (nhamunda.am.gov.br)
Essas referências mostram que a história de Nhamundá não começa com a criação do município no século 20. A ocupação humana da região é anterior à organização colonial e administrativa que mais tarde definiria vilas, distritos e municípios. Como em outras áreas da Amazônia, os rios orientavam deslocamentos, trocas, ocupação e comunicação entre diferentes comunidades.
O próprio nome Nhamundá está ligado ao rio que banha o município. A tradição difundida por órgãos locais relaciona a denominação a Jamundá, identificado como tuxaua associado ao povo Wabuy. Segundo esse relato, Jamundá teria conduzido seu grupo para as cabeceiras do rio em reação à exploração e aos maus-tratos praticados por colonizadores. A narrativa faz parte da memória histórica preservada no município, embora diferentes documentos apresentem versões e grafias distintas sobre povos, nomes e períodos. (nhamunda.am.gov.br)
Da vila à emancipação política
Os registros institucionais consultados indicam que a localidade foi elevada à categoria de vila em 1758. No início do século 20, a área apareceu na divisão administrativa de 1911 como parte do município de Parintins. Também foi associada ao distrito de Jamundá, posteriormente extinto. (nhamunda.am.gov.br)
A formação do município ocorreu em uma etapa de reorganização territorial do Amazonas. Em 19 de dezembro de 1955, a Lei Estadual nº 96 criou novos municípios no estado e desmembrou de Parintins o distrito de Ilha das Cotias, que passou a constituir o município de Nhamundá. A norma foi posteriormente revogada pela Lei nº 117, de 29 de dezembro de 1956, conforme o registro da Assembleia Legislativa do Amazonas. (sapl.al.am.leg.br)
A instalação administrativa de Nhamundá ocorreu em 31 de janeiro de 1956. A data passou a ser celebrada como aniversário do município. Segundo a história publicada pela prefeitura, o primeiro prefeito foi o tenente Pedro Macedo de Albuquerque, nomeado pelo então governador do Amazonas, Plínio Ramos Coelho. (nhamunda.am.gov.br)
A trajetória até a autonomia política também aparece associada a antigos nomes da área, como Ilha das Cotias e Ilha Afonso de Carvalho. Essas denominações ajudam a registrar as transformações pelas quais o território passou antes de adotar definitivamente o nome Nhamundá.
Icamiabas: entre a crônica colonial e a tradição
Uma das narrativas mais conhecidas relacionadas ao município é a das Icamiabas, mulheres guerreiras que aparecem em relatos associados à expedição de Francisco de Orellana pelo grande rio amazônico. O frei Gaspar de Carvajal, que participou da viagem e registrou acontecimentos da expedição, descreveu um confronto com mulheres guerreiras em uma área relacionada ao rio Nhamundá.
O episódio é apontado em documentos e estudos como uma das origens da denominação Amazonas. Há, porém, diferenças nas datas e na interpretação do relato: alguns registros mencionam 1541, enquanto outros indicam 1542. Por isso, a referência deve ser tratada como parte de uma tradição histórica documentada em crônicas coloniais, e não como uma descrição contemporânea comprovada de todos os detalhes atribuídos às guerreiras. (sema.am.gov.br)
Na memória cultural de Nhamundá, as Icamiabas são apresentadas como símbolo de força, autonomia e resistência. A tradição também as relaciona aos muiraquitãs, objetos associados à pedra verde e a formas de sapo, tartaruga ou outros animais. A prefeitura descreve o muiraquitã como um amuleto ligado às narrativas sobre as guerreiras e ao chamado Reino das Pedras Verdes. (nhamunda.am.gov.br)
Essas histórias ocupam lugar importante na identidade do município, mas precisam ser compreendidas em seu contexto. Elas combinam relatos de viajantes europeus, interpretações posteriores e memórias indígenas transmitidas por diferentes gerações. O resultado é uma tradição que conecta o território de Nhamundá à origem do nome Amazonas e à permanência de referências indígenas na cultura regional.
O rio Nhamundá e a paisagem ribeirinha
O rio Nhamundá é o principal elemento da paisagem e da organização territorial do município. Suas águas integram uma rede de rios, igarapés e lagos que influencia o transporte, a pesca, o abastecimento e a formação das comunidades. As margens também refletem o ritmo das cheias e vazantes, fenômeno que altera praias, áreas de várzea e caminhos de acesso.
Em períodos de menor nível dos rios, surgem praias e bancos de areia que podem receber atividades de lazer e festivais locais. A Praia da Liberdade é citada pela prefeitura entre os espaços associados aos festivais de verão. Como ocorre em grande parte da Amazônia, a paisagem pode variar significativamente conforme o ciclo hidrológico, o que impede uma descrição fixa para todos os meses do ano. (nhamunda.am.gov.br)
O município também é descrito como uma área de grande riqueza hidrográfica e de estoques pesqueiros. Entre os ambientes mencionados estão o Alto Rio Nhamundá e o Complexo de Lagos do Macuricanã, relacionado à Área de Proteção Ambiental Nhamundá. Esses espaços reúnem diferentes tipos de ambientes aquáticos e florestais, cuja conservação é importante para a biodiversidade e para as atividades das comunidades. (nhamunda.am.gov.br)
Pesca esportiva e turismo de natureza
A pesca esportiva é apontada como uma das principais atividades turísticas de Nhamundá. O município ganhou visibilidade pela Festa da Pesca do Tucunaré, que inclui um festival de pesca esportiva com duração de 72 horas, segundo informações da administração municipal. A programação ocorre tradicionalmente no último fim de semana de setembro, conforme o calendário divulgado pelo município, embora datas específicas possam variar de acordo com cada edição. (nhamunda.am.gov.br)
O tucunaré, especialmente a espécie Cichla vazzoleri, é apresentado como um dos peixes de maior interesse para os visitantes. A pesca esportiva, no entanto, depende de autorização local e deve observar regras ambientais e orientações dos órgãos responsáveis. A presença de peixes de couro no Alto Rio Nhamundá e no Complexo de Lagos do Macuricanã também é destacada como parte do potencial turístico da região. (nhamunda.am.gov.br)
Além da pesca, a experiência de conhecer Nhamundá está ligada à navegação, à observação das margens e ao contato com os modos de vida ribeirinhos. A paisagem não se limita a um ponto turístico isolado: ela é formada pelo conjunto de rios, lagos, praias, florestas e comunidades que compõem o território municipal.
Memória, cultura e identidade local
A cultura de Nhamundá combina referências indígenas, tradições ribeirinhas e festas comunitárias. As narrativas sobre as Icamiabas e os muiraquitãs aparecem como elementos simbólicos de uma identidade que valoriza a ancestralidade e a relação com a natureza. Ao mesmo tempo, a pesca, os deslocamentos pelos rios e as celebrações locais mantêm vínculos com práticas cotidianas da população.
A chamada Ilha das Icamiabas não é apenas uma denominação turística. O nome resume uma parte importante da maneira como Nhamundá se apresenta: um município cuja história é contada por meio de rios, lendas, povos originários e processos políticos que levaram à emancipação. Essa combinação ajuda a diferenciar a cidade de outros municípios do Amazonas e reforça a importância de preservar os registros históricos e a memória das comunidades.
Conhecer Nhamundá, portanto, significa observar mais do que suas paisagens naturais. É compreender como a presença indígena, a navegação, a formação administrativa e as tradições culturais se articulam em um município marcado pela água. Entre o rio Nhamundá e as áreas de lagos e florestas, a cidade mantém uma história própria dentro do Baixo Amazonas.