Rio Preto da Eva, no Amazonas, tem uma trajetória marcada pela relação entre estrada, agricultura, rios e floresta. O município se formou a partir do deslocamento de famílias em busca de terras para produzir e ganhou importância com a ligação rodoviária entre Manaus e Itacoatiara. Ao longo do tempo, a produção rural passou a conviver com atividades de lazer, gastronomia e turismo de natureza.
Localizado no entorno de Manaus, o município ocupa uma posição estratégica para o turismo de proximidade. A produção de frutas e outros alimentos, os balneários naturais, as propriedades rurais e a culinária regional formam um conjunto que ajuda a explicar a identidade de Rio Preto da Eva. O planejamento turístico do Amazonas reconhece essa combinação como uma das principais vocações locais.
Uma história ligada à abertura da estrada
A origem de Rio Preto da Eva está relacionada à abertura da estrada que pretendia conectar Manaus a Itacoatiara por via terrestre. Até então, a comunicação entre os dois municípios dependia principalmente dos rios. Segundo a história oficial publicada pela Prefeitura de Rio Preto da Eva, os trabalhos de topografia e abertura da estrada começaram em meados da década de 1960.
A notícia sobre a construção da rodovia estimulou a chegada de famílias de comunidades ribeirinhas próximas, como Rubim e Tiririca, além de moradores vindos de Manaus. Essas pessoas se estabeleceram nas margens do caminho em busca de melhores condições de vida e de áreas para cultivar. A ocupação deu origem a uma colônia que, gradualmente, passou a reunir mais moradores e atividades econômicas.
Em 12 de abril de 1961, a localidade foi elevada à categoria de município com o nome de Eva. A experiência administrativa, porém, durou pouco. O município foi extinto em 4 de junho de 1964, enquanto a área continuou se desenvolvendo como colônia agrícola.
O avanço da estrada enfrentou um obstáculo natural: um rio de águas escuras que interrompia a continuidade das obras. Para manter a passagem de pessoas, máquinas e materiais, foi levada de Manaus uma balsa de ferro, transportada pelos rios Amazonas, Paraná da Eva e Rio Grande. A travessia se tornou parte da rotina de uma comunidade que crescia junto com a implantação da rodovia.
A formação da colônia agrícola
Com o aumento da população, foi criada a Colônia Agrícola do Rio Preto, vinculada à Secretaria Estadual de Produção Rural. A iniciativa contribuiu para organizar a divisão de lotes e apoiar a produção dos colonos. A agricultura de subsistência era a base da vida econômica, com cultivo de farinha de mandioca, feijão, arroz, milho, abacaxi, cupuaçu e cana.
A produção também começou a alcançar mercados fora da colônia. De acordo com o relato histórico municipal, um caminhão passou a transportar os produtos para Manaus, onde eram vendidos na Feira do Produtor. Entre os itens cultivados naquele período, a farinha de mandioca ganhou destaque na produção estadual.
A infraestrutura de transporte foi decisiva para essa mudança. Primeiro, uma ponte de madeira facilitou a passagem pelo rio. Depois, uma ponte de concreto, iniciada em 1968 e concluída em 1969, substituiu a estrutura anterior. A melhoria da travessia acompanhou o crescimento do tráfego e ajudou a consolidar a conexão terrestre da localidade.
Em 10 de dezembro de 1981, Rio Preto da Eva voltou a ser elevado à categoria de município. O nome passou a fazer referência ao rio de águas escuras que banha a região e ao Paraná da Eva. A emancipação marcou uma nova etapa institucional para uma comunidade cuja formação havia sido impulsionada pela agricultura e pela abertura da estrada.
A agricultura como base econômica e cultural
A produção rural continua sendo um dos elementos centrais de Rio Preto da Eva. O setor reúne agricultura familiar, fruticultura, pecuária, pesca, avicultura e atividades extrativistas. O campo não representa apenas uma fonte de renda: também influencia a alimentação, as festas, a identidade local e a oferta de produtos que chegam a consumidores de Manaus e de outras áreas do Amazonas.
Dados do Censo Agropecuário de 2017, citados em levantamento divulgado pela Prefeitura em parceria com representantes do setor e técnicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, registraram no município cultivos de abacate, açaí, banana, coco, laranja, limão, maracujá, tangerina, abacaxi, mandioca e melancia. A relação mostra a diversidade da produção agrícola local, baseada sobretudo em frutas tropicais e culturas adaptadas às condições amazônicas.
A presença de diferentes cadeias produtivas também cria oportunidades para o beneficiamento de alimentos. Frutas podem ser transformadas em polpas, doces, bebidas e outros produtos. A mandioca pode ser comercializada como farinha ou utilizada em preparações tradicionais. Esse processo aproxima a agricultura da gastronomia e amplia o valor econômico do que é produzido no município.
O fortalecimento da agricultura, no entanto, depende de fatores como assistência técnica, logística, acesso a mercados, organização dos produtores e regularidade das informações sobre a produção. A participação de órgãos como o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas e o IBGE em reuniões com produtores mostra a importância do acompanhamento estatístico e do planejamento para o setor.
Turismo rural e gastronomia amazônica
O turismo de Rio Preto da Eva está ligado ao cotidiano do campo e à experiência de conhecer produtos, sabores e formas de viver da Amazônia. Em vez de depender exclusivamente de grandes estruturas, a atividade pode se desenvolver a partir de propriedades rurais, restaurantes, cafés regionais, balneários e eventos associados à produção local.
O Plano Estadual de Turismo do Amazonas para o período de 2026 a 2036 classifica Rio Preto da Eva e Presidente Figueiredo como destinos estratégicos no entorno da capital. O documento aponta potencial para o turismo gastronômico, rural, de pesca esportiva e de natureza.
No caso de Rio Preto da Eva, o plano destaca a culinária regional, o café regional, os produtos agroextrativistas, os balneários naturais e as propriedades rurais. A proposta é integrar produção agrícola, alimentação, lazer e contato com o ambiente natural. Essa combinação favorece principalmente viagens curtas e visitas de fim de semana, impulsionadas pela proximidade com Manaus.
O turismo rural pode incluir a visita a áreas de cultivo, a observação de práticas agrícolas, a compra de produtos diretamente dos produtores e a degustação de alimentos regionais. Quando organizado com participação dos moradores, o segmento distribui renda e valoriza conhecimentos locais, mas exige planejamento para evitar impactos ambientais e garantir segurança e qualidade no atendimento.
Rios, balneários e paisagens naturais
A natureza está presente na própria origem e no nome do município. O Rio Preto da Eva é um dos principais elementos da paisagem local e se relaciona com a história da ocupação, do transporte e da formação das comunidades. Seus ambientes de água e floresta ajudam a sustentar atividades de lazer, pesca e turismo.
Os balneários naturais aparecem entre os atrativos associados ao município. Esses espaços podem receber visitantes em períodos de maior procura, especialmente durante fins de semana e feriados. A utilização turística, porém, depende de cuidados com resíduos, preservação das margens, qualidade da água, segurança e respeito às áreas de vegetação.
O turismo de natureza também pode envolver trilhas, observação da paisagem, pesca esportiva e experiências em propriedades rurais. A divulgação oficial do município e o planejamento estadual citam ainda cachoeiras, grutas e cavernas como parte do conjunto de atrativos e facilidades da região turística. A oferta, contudo, deve ser apresentada com responsabilidade, considerando as condições de acesso e a necessidade de acompanhamento por prestadores preparados.
Em 2024, o município recebeu um workshop de turismo sustentável promovido em parceria entre o Governo do Amazonas e a Prefeitura. A atividade incluiu informações sobre o Cadastur, programas estaduais de apoio e ações de ordenamento dos prestadores de serviços turísticos. O encontro indicou uma tentativa de estruturar o setor e aproximar empreendedores locais das políticas públicas de turismo.
Festas, sabores e identidade local
A relação entre agricultura e cultura aparece em eventos associados a produtos regionais. O planejamento estadual de turismo cita a Festa do Cupuaçu e a Festa da Laranja entre os principais atrativos e facilidades de Rio Preto da Eva. Essas celebrações ajudam a dar visibilidade à produção agrícola e a aproximar moradores, visitantes, comerciantes e produtores.
O cupuaçu ocupa lugar importante na alimentação amazônica e pode ser utilizado em sucos, doces, cremes e outras preparações. A laranja, por sua vez, representa uma das frutas cultivadas no município. Ao serem incorporados a festas e roteiros gastronômicos, esses produtos passam a funcionar também como símbolos de pertencimento e ferramentas de promoção turística.
O café regional é outro elemento destacado no planejamento estadual. A expressão reúne uma refeição associada a alimentos e ingredientes comuns na Amazônia, como frutas, pães, tapiocas, bolos, peixes e preparações com mandioca, conforme a oferta de cada estabelecimento. Mais do que uma refeição, o café regional pode ser entendido como uma experiência de contato com hábitos alimentares e produtos da região.
Desafios para o desenvolvimento sustentável
O crescimento da agricultura e do turismo traz oportunidades, mas também exige coordenação. O aumento do fluxo de visitantes pode pressionar áreas naturais, gerar mais resíduos e ampliar a demanda por água, transporte e serviços. Na agricultura, os desafios envolvem escoamento, assistência técnica, agregação de valor e acesso a mercados.
Por isso, o desenvolvimento de Rio Preto da Eva depende de políticas que conciliem produção e conservação. A atividade turística precisa respeitar os rios, a floresta, as propriedades e as comunidades. A produção rural, por sua vez, pode ganhar competitividade quando associada à conservação ambiental, ao uso responsável dos recursos e à valorização dos produtos locais.
A história do município mostra que a agricultura e a circulação de pessoas foram decisivas para sua formação. Hoje, esses elementos se combinam ao turismo rural, à gastronomia e à natureza. Rio Preto da Eva não é apenas um ponto de passagem entre Manaus e o interior do Amazonas: é também um território onde o campo, os rios e a cultura regional ajudam a construir uma economia e uma identidade próprias.
Fontes consultadas
As informações históricas foram verificadas na página institucional da Prefeitura de Rio Preto da Eva. Os dados sobre produção rural foram consultados em publicação municipal que reúne informações do Censo Agropecuário e do IBGE. As referências sobre turismo foram baseadas no planejamento estadual de turismo do Amazonas e em informações oficiais sobre ações de turismo sustentável no município.