segunda-feira, 28 de setembro de 2026
MANCHETES

Pesquisa revela novos detalhes sobre a biodiversidade amazônica no Amazonas

Uma expedição científica realizada na Serra do Aracá, no norte do Amazonas, encontrou dezenas de espécies possivelmente novas para a ciência e reforçou a importância dos ambientes de altitude para a biodiversidade amazônica.

Uma expedição científica realizada na Serra do Aracá, no norte do Amazonas, revelou novos detalhes sobre a biodiversidade amazônica em ambientes de altitude. Durante 19 dias de trabalho de campo, pesquisadores catalogaram animais, plantas, invertebrados e microrganismos, além de coletarem amostras de solo, água e parasitas.

O levantamento identificou dezenas de espécies possivelmente novas para a ciência. Entre os principais resultados estão cinco possíveis espécies novas de lagartos, uma cobra inédita e cerca de dez prováveis novidades entre os anfíbios. A confirmação depende de análises morfológicas, genéticas e taxonômicas que ainda serão realizadas.

Expedição investigou áreas pouco conhecidas

A pesquisa foi conduzida por uma equipe de 16 pesquisadores em dois pontos da Serra do Aracá, formação localizada no município de Barcelos, no Amazonas. O campo-base foi instalado em um platô situado a cerca de 220 quilômetros da sede municipal, em uma área de aproximadamente 210 quilômetros quadrados.

O grupo também investigou uma montanha isolada, batizada pelos pesquisadores de Aracazinho. O local fica a cerca de 25 quilômetros do acampamento principal e apresenta características diferentes das encontradas no platô maior, tanto no solo quanto na vegetação.

As atividades começaram em 24 de agosto e foram encerradas em 12 de setembro de 2026. A expedição enfrentou dificuldades de acesso, relevo acidentado, paredões de arenito, trechos alagados e períodos de pouca chuva. Para encontrar uma rota até a floresta de altitude, os pesquisadores usaram imagens obtidas por drone.

Montanhas formam ambientes distintos na Amazônia

A Serra do Aracá integra uma região de montanhas de topo plano conhecidas como tepuis. Essas formações fazem parte do chamado Pantepui, conjunto de áreas elevadas distribuídas pelo Escudo das Guianas, entre o norte do Brasil, o sul da Venezuela e o oeste da Guiana.

Embora esteja inserida na Amazônia, a paisagem encontrada nas partes mais altas apresenta condições ambientais diferentes das observadas nas florestas de baixa altitude. A presença de paredões rochosos, riachos de águas avermelhadas, musgos e áreas constantemente úmidas cria habitats específicos para plantas e animais.

Um dos ambientes investigados foi a mata nebular, floresta úmida de altitude que costuma permanecer envolta por neblina ou nuvens baixas. Segundo os pesquisadores, a composição da fauna e da vegetação nesse tipo de ambiente se aproxima mais de áreas montanhosas do que da Amazônia encontrada nas planícies.

Essa diversidade de paisagens ajuda a explicar por que uma mesma área pode abrigar conjuntos diferentes de espécies em distâncias relativamente pequenas. No platô principal, por exemplo, predominavam rochas expostas e plantas adaptadas a crescer sobre o arenito. Já no Aracazinho, o terreno era mais arenoso e tinha menor presença de pedras visíveis.

Répteis e anfíbios concentram possíveis novidades

O grupo responsável pelo estudo de répteis e anfíbios contabilizou nove espécies de lagartos, cinco espécies de cobras e 18 espécies de anfíbios. Entre os lagartos, cinco são considerados provavelmente novos para a ciência, incluindo a possibilidade de um gênero ainda não descrito.

Também foi registrada uma cobra que, de acordo com a avaliação inicial dos especialistas, não havia sido identificada anteriormente. Entre os anfíbios, cerca de dez espécies foram apontadas como possíveis novidades. A confirmação exige comparação com exemplares já conhecidos e exames de características anatômicas, sonoras e genéticas.

A pouca chuva durante parte do trabalho dificultou a observação desses animais. Anfíbios e muitos répteis dependem diretamente da umidade para manter suas atividades. Em períodos mais secos, eles podem permanecer escondidos, o que reduz a possibilidade de registro e coleta.

Uma chuva intensa ocorrida nos últimos dias da expedição aumentou a atividade dos animais e permitiu novas observações. Para os pesquisadores, a mudança nas condições ambientais foi importante para ampliar o inventário da fauna local.

Levantamento reuniu aves e pequenos mamíferos

A expedição também investigou aves, roedores e marsupiais. Os pesquisadores coletaram cerca de 200 exemplares de aves, distribuídos em aproximadamente 80 espécies. O inventário de pequenos mamíferos reuniu cerca de 80 espécimes, pertencentes a aproximadamente 20 espécies.

Além dos animais capturados para análise científica, foram encontradas evidências indiretas da presença de espécies de maior porte, como veados e iraras. Esses registros ajudam a indicar como a área é utilizada pela fauna, mesmo quando os animais não são observados diretamente.

O estudo de aves e mamíferos é relevante porque esses grupos podem responder de formas diferentes às condições de altitude, ao tipo de solo e à disponibilidade de alimento. A comparação entre os ambientes da Serra do Aracá e do Aracazinho deve permitir uma análise mais detalhada da distribuição das espécies.

Plantas, insetos e invertebrados também foram catalogados

O inventário incluiu mais de 300 amostras de invertebrados e cerca de 400 registros de plantas. O material botânico deu origem a aproximadamente 2 mil exsicatas, que são amostras prensadas e preparadas para conservação em herbários.

Foram coletados exemplares de plantas vasculares, liquens e briófitas. Esses grupos desempenham funções importantes nos ecossistemas de altitude, participando da formação do solo, da retenção de umidade e da oferta de abrigo e alimento para outros organismos.

Na área de entomologia, a equipe reuniu entre 7 mil e 11 mil espécimes de insetos. O material foi distribuído em aproximadamente 200 a 350 morfoespécies, classificação usada quando os organismos podem ser diferenciados por características externas, mas ainda não foram identificados de forma definitiva.

O número de morfoespécies pode mudar após a análise em laboratório. Em alguns casos, organismos visualmente semelhantes pertencem à mesma espécie. Em outros, características genéticas ou anatômicas revelam que exemplares considerados parecidos fazem parte de grupos distintos.

Amostras permitirão estudar a história ambiental

Além do inventário de espécies, os cientistas coletaram 250 amostras de parasitas sanguíneos e entre 80 e 90 amostras para análises citogenéticas. Esse tipo de investigação observa os cromossomos e pode ajudar a identificar diferenças evolutivas entre populações.

A equipe também recolheu amostras de água e solo para extrair DNA ambiental. Esse método permite detectar vestígios de vírus, bactérias, amebas e outros organismos a partir do material genético presente no ambiente, sem que seja necessário capturar todos os seres vivos.

Outro objetivo é reconstruir parte da história da vegetação da região. Para isso, foram feitas cinco perfurações no solo, com profundidades entre 50 centímetros e 1 metro. O material será analisado para identificar pólen e compreender como a cobertura vegetal mudou nos últimos 30 mil anos.

Essas informações podem ajudar a relacionar a distribuição atual das espécies com transformações climáticas e ambientais ocorridas no passado. O resultado também pode contribuir para estimar a capacidade de adaptação dos ecossistemas diante de mudanças futuras.

Descobertas ainda dependem de confirmação

A identificação de uma espécie como nova para a ciência não ocorre no momento da coleta. O material precisa passar por etapas de laboratório, incluindo comparação com coleções científicas, descrição das características e, em alguns casos, análise de DNA.

Somente depois desse processo é possível publicar uma descrição formal e propor um nome científico. Por isso, os resultados da expedição são apresentados como possíveis novidades, e não como espécies oficialmente reconhecidas.

Essa distinção é importante porque parte dos exemplares pode corresponder a espécies já descritas, mas pouco estudadas ou registradas em outras regiões. Também é possível que diferentes populações de uma mesma espécie apresentem variações associadas à altitude e ao isolamento geográfico.

Pesquisa reforça importância da conservação

Os resultados mostram que a biodiversidade amazônica ainda possui lacunas importantes de conhecimento, especialmente em áreas de difícil acesso. Ambientes montanhosos, florestas nebulares e platôs rochosos podem concentrar espécies com distribuição restrita e maior vulnerabilidade a alterações ambientais.

O isolamento geográfico pode favorecer o surgimento de características próprias, mas também limita a capacidade de uma população se recuperar diante da perda de habitat. Por essa razão, o conhecimento produzido por expedições como a da Serra do Aracá é considerado relevante para orientar ações de monitoramento e conservação.

A pesquisa também evidencia a necessidade de combinar diferentes métodos. O uso de drones facilitou o planejamento das trilhas, enquanto o DNA ambiental, as análises citogenéticas e o estudo de pólen ampliam o alcance do inventário tradicional.

As amostras coletadas ainda serão analisadas. A expectativa é que os resultados futuros confirmem parte das espécies consideradas novas e revelem outras informações sobre a evolução, a distribuição e as condições ambientais da Serra do Aracá.

Para além da descoberta de novos organismos, o levantamento contribui para mostrar que a Amazônia não é um ambiente uniforme. A floresta reúne diferentes paisagens, altitudes, solos e regimes de umidade, cada um associado a comunidades específicas de seres vivos. No Amazonas, essa diversidade aparece de forma particularmente evidente nas montanhas isoladas do norte do estado.