O paradesporto no Amazonas construiu uma trajetória que passa pela escola, por associações esportivas, por centros de treinamento e pelas seleções brasileiras. Em diferentes modalidades, atletas do estado transformaram a prática esportiva em caminho de formação, competição e representação nacional.
A presença amazonense em torneios como as Paralimpíadas Escolares, campeonatos brasileiros, eventos internacionais e os Jogos Paralímpicos mostra que o esporte adaptado deixou de ocupar apenas um espaço de iniciação. Hoje, também integra o alto rendimento e exige treinamento contínuo, estrutura, classificação esportiva, apoio financeiro e participação em competições.
As histórias de Laiana Rodrigues Batista, Elielton Lira de Oliveira e Maria de Fátima Costa de Castro ajudam a entender esse processo. Cada atleta chegou ao esporte por um caminho diferente, mas as trajetórias têm em comum a persistência diante de mudanças físicas, barreiras sociais e dificuldades de acesso.
Da escola às competições nacionais
Uma das portas de entrada para o paradesporto no Amazonas é o ambiente escolar. Os Jogos Escolares do Amazonas e as competições organizadas para estudantes com deficiência funcionam como espaços de descoberta de talentos e de aproximação com técnicos, clubes e entidades especializadas.
Uma pesquisa sobre o paradesporto escolar amazonense analisou a participação do estado nas Paralimpíadas Escolares entre 2009 e 2023. O estudo identificou aumento gradual do número de modalidades em que o Amazonas teve atletas inscritos, sinal de ampliação da participação do estado no circuito nacional de base.
As Paralimpíadas Escolares são organizadas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro e reúnem estudantes de várias unidades da Federação. A competição permite que jovens atletas tenham contato com regras, classificações funcionais e rotinas próprias do esporte de rendimento, além de criar uma rede de intercâmbio entre delegações.
Em 2024, a delegação amazonense conquistou oito medalhas no primeiro dia de participação nas Paralimpíadas Escolares, em São Paulo. Naquele ano, a competição reuniu mais de 2 mil atletas de todos os estados e do Distrito Federal, em 13 modalidades esportivas. O resultado evidenciou a presença do Amazonas na formação de novos competidores.
O caminho, porém, não termina na escola. Para avançar, o atleta precisa encontrar treinamento regular, equipamentos adequados, profissionais especializados e condições para disputar torneios fora do estado. A distância geográfica e os custos de deslocamento são fatores que tornam a continuidade esportiva especialmente desafiadora na Região Norte.
Laiana Rodrigues e a retomada pelo vôlei sentado
Laiana Rodrigues Batista é um dos principais exemplos de atleta amazonense que percorreu o caminho entre o esporte escolar e a seleção brasileira. Nascida e criada em Manaus, ela começou a jogar voleibol aos 14 anos, na Escola Estadual de Tempo Integral Maria Madalena Santana de Lima, e participou dos Jogos Escolares do Amazonas.
Aos 18 anos, a atleta teve a trajetória no voleibol convencional interrompida por uma dengue hemorrágica e pela síndrome de Guillain-Barré, doença autoimune que provocou paralisia nas pernas e deixou o pé direito caído. O reencontro com a modalidade ocorreu anos depois, por meio do vôlei sentado.
Laiana passou a praticar o paradesporto aos 33 anos. A adaptação permitiu que ela retomasse a carreira esportiva e chegasse à seleção brasileira. Antes dos Jogos de Paris 2024, já havia conquistado medalhas de bronze nos Jogos Paralímpicos do Rio, em 2016, e de Tóquio, em 2020, além de pratas nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, em 2015, e Lima, em 2019.
A atleta também participou de outras competições internacionais, como o Campeonato Pan-Americano, os Jogos Intercontinentais, a Copa do Mundo e o Super Six. Em 2024, foi convocada para representar o Brasil no vôlei sentado nos Jogos Paralímpicos de Paris.
A história de Laiana também se conecta à formação de novos atletas. Antes de integrar a seleção, ela atuou como competidora e treinadora em competições escolares. Esse vínculo entre experiência esportiva e educação ajuda a explicar como o paradesporto pode criar referências para estudantes com deficiência.
Elielton Lira: do judô à seleção brasileira
O judoca Elielton Lira de Oliveira nasceu em Manaus e perdeu a visão aos 12 anos, após um acidente com arma de fogo. A aproximação com o esporte começou pelo jiu-jítsu. Aos 19 anos, ele conheceu o judô paralímpico e passou a se dedicar à modalidade.
Em depoimento ao Ministério do Esporte, Elielton relatou que o esporte foi decisivo para se afastar de vícios e da criminalidade. A mudança de rotina o levou a priorizar os treinos e a buscar uma carreira competitiva. Mais tarde, o atleta deixou Manaus para morar em São Paulo, onde passou a contar com uma estrutura de preparação voltada ao alto rendimento.
O amazonense conquistou medalha de prata nos Jogos Parapan-Americanos de Santiago, em 2023, na categoria até 60 quilos, classe J1/J2. A campanha marcou sua estreia na competição e o colocou entre os nomes do judô brasileiro convocados para Paris 2024.
No judô paralímpico, os atletas são distribuídos em classes relacionadas ao grau de deficiência visual. A organização por categorias busca garantir equilíbrio entre os competidores e faz parte das regras técnicas da modalidade. Além da preparação física e tática, o atleta precisa dominar a orientação espacial e o contato direto característico do judô.
A trajetória de Elielton mostra que o paradesporto pode funcionar como instrumento de mudança pessoal, mas também evidencia a necessidade de políticas que assegurem a permanência do atleta no treinamento. A mudança para outro estado, a participação em camps e as viagens para torneios exigem recursos que nem sempre estão disponíveis localmente.
Maria de Fátima Castro e o pódio em Paris
Natural de Tefé, no interior do Amazonas, Maria de Fátima Costa de Castro nasceu com uma má-formação congênita nas pernas. Ela conheceu o halterofilismo paralímpico em 2017 e passou a se dedicar de forma mais intensa à modalidade a partir de 2019.
A atleta competiu na categoria até 67 quilos e acumulou resultados importantes antes dos Jogos de Paris. Entre eles estão o bronze nos Jogos Parapan-Americanos de Santiago, em 2023, a prata por equipes no Mundial de Halterofilismo de Dubai, também em 2023, e o bronze na Copa do Mundo de Dubai, em 2022.
Em 6 de setembro de 2024, Maria de Fátima conquistou a medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos de Paris. Ela levantou 133 quilos na Arena La Chapelle, terminou atrás da chinesa Yujiao Tan e da egípcia Fatma Elyan e estabeleceu o então recorde das Américas na categoria, segundo o Ministério do Esporte.
O resultado teve peso histórico para o Amazonas. Além de ser a primeira participação da atleta em Jogos Paralímpicos, a medalha colocou em evidência uma competidora oriunda do interior do estado e mostrou a presença amazonense em uma modalidade que exige força, técnica e preparação especializada.
O nome de Maria de Fátima também aparece no ranking nacional de halterofilismo paralímpico referente a 2024. O documento do Comitê Paralímpico Brasileiro registra a marca de 133 quilos obtida em Paris e a liderança da atleta na categoria até 67 quilos naquele levantamento.
Estrutura, financiamento e continuidade
O desempenho dos atletas não depende apenas de talento individual. O alto rendimento paralímpico envolve treinamento diário, acompanhamento médico e fisioterapêutico, equipamentos, viagens, inscrições, alimentação e suporte técnico. Em muitos casos, também exige que o atleta se mude para uma cidade com melhores condições de preparação.
Os três atletas amazonenses destacados pelo Ministério do Esporte antes dos Jogos de Paris 2024 eram beneficiários do Bolsa Atleta. O programa federal atende esportistas de diferentes níveis e modalidades, com categorias que incluem atletas de base, competidores nacionais, internacionais e representantes do alto rendimento.
O Governo do Amazonas também criou ações de apoio a atletas que buscavam classificação para Paris, por meio do projeto Amazonas nas Olimpíadas de Paris 2024. A iniciativa incluiu esportistas de modalidades olímpicas e paralímpicas, com a proposta de oferecer suporte à preparação e à participação em competições.
Esses mecanismos são relevantes porque o calendário do paradesporto é distribuído por várias cidades e países. Sem apoio para transporte, hospedagem e treinamento, a distância entre Manaus e os principais centros esportivos pode dificultar a evolução de atletas que já demonstram potencial competitivo.
O desafio de ampliar a base
Os resultados em grandes eventos ajudam a dar visibilidade ao paradesporto, mas o desenvolvimento sustentável depende da ampliação da base. Isso inclui identificar crianças e adolescentes com deficiência, garantir acesso às escolas e aos espaços esportivos e formar profissionais capazes de trabalhar com diferentes modalidades.
Também é necessário evitar que a narrativa de superação esconda as condições concretas enfrentadas pelos atletas. A deficiência não é o único obstáculo. Falta de acessibilidade, escassez de equipamentos, poucas competições regulares e custos de deslocamento podem limitar a permanência de novos talentos.
No Amazonas, a consolidação de uma rede entre escolas, associações, universidades, federações, poder público e Comitê Paralímpico Brasileiro pode reduzir essas barreiras. A realização de eventos em Manaus, como etapas de competições e meetings paralímpicos, aproxima atletas locais do circuito nacional e cria oportunidades para diferentes níveis de rendimento.
O paradesporto amazonense, portanto, reúne duas dimensões complementares. De um lado, está a história de atletas que superaram interrupções, limitações e mudanças de vida para competir em alto nível. De outro, está a construção de uma política esportiva capaz de transformar essas exceções em uma trajetória contínua de formação.
As medalhas de Maria de Fátima, a carreira internacional de Laiana Rodrigues e a ascensão de Elielton Lira mostram que o Amazonas já produz atletas competitivos. O próximo passo é garantir que mais jovens tenham acesso ao esporte, encontrem condições para permanecer nele e possam escolher entre a prática recreativa, a formação escolar e o alto rendimento.
Fontes: Ministério do Esporte, Comitê Paralímpico Brasileiro, Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar do Amazonas e pesquisa sobre o paradesporto escolar amazonense.