Maués, no interior do Amazonas, é conhecida em todo o país pela relação histórica, cultural e econômica com o guaraná. A cidade está localizada em uma região onde o fruto foi domesticado e cultivado por povos indígenas há séculos, antes de se transformar em um produto comercial de alcance nacional.
Essa trajetória combina conhecimentos tradicionais, agricultura familiar, pesquisa científica e circulação comercial. Em 22 de setembro de 2025, a importância do município foi reconhecida oficialmente com a sanção da Lei nº 15.216, que conferiu a Maués o título de Capital Nacional do Guaraná.
Uma história construída antes da exploração comercial
O guaraná é uma planta nativa da Amazônia, conhecida cientificamente como Paullinia cupana. Antes de ser utilizado pela indústria de bebidas e comercializado em diferentes formas, o fruto já fazia parte da vida cotidiana e das práticas culturais de povos indígenas do Baixo Amazonas.
Documentos técnicos da Embrapa registram que o cultivo do guaraná remonta ao período pré-colombiano. Entre os povos associados a essa tradição estão os Maués, os Andirás e os Marabitanas. A planta era utilizada para preparar bebidas e alimentos, além de integrar conhecimentos tradicionais relacionados à saúde, à disposição física e à vida comunitária.
Na região de Maués, a relação com o guaraná é especialmente associada ao povo Sateré-Mawé. A tradição indígena contribuiu para transformar uma planta de hábito trepador, encontrada na floresta, em um arbusto cultivado de maneira sistemática. Esse processo de domesticação foi decisivo para que o guaraná pudesse ser plantado, colhido e beneficiado em maior escala.
O significado do guaraná para os Sateré-Mawé
Entre os Sateré-Mawé, o guaraná é conhecido como waranã. O nome está ligado à identidade do povo e à forma como a planta é compreendida dentro de sua cultura. O fruto não representa apenas uma fonte de renda ou uma matéria-prima agrícola, mas também um elemento relacionado à memória, à espiritualidade e à transmissão de conhecimentos entre gerações.
O preparo tradicional envolve a seleção e a secagem das sementes. Depois de torradas, elas podem ser transformadas em bastões ou em pó. O bastão é tradicionalmente ralado, inclusive com o uso da língua áspera do pirarucu, e diluído em água para o consumo.
Esse modo de preparo diferencia o guaraná de Maués de outras formas industrializadas de consumo. Embora o fruto esteja presente em refrigerantes, energéticos, xaropes, cápsulas e pós, a tradição indígena mantém técnicas próprias de beneficiamento e usos que antecedem a expansão do mercado.
Da tradição regional ao mercado brasileiro
A circulação do guaraná para além das aldeias e comunidades amazônicas ocorreu gradualmente. Colonos e comerciantes que mantinham contato com os povos indígenas passaram a utilizar e negociar o produto. Com o tempo, o guaraná foi incorporado ao comércio regional e, posteriormente, à indústria de bebidas.
O fruto ganhou valor por causa da presença de cafeína nas sementes. Essa característica ajudou a consolidar sua imagem como produto estimulante e contribuiu para a criação de uma cadeia comercial baseada na venda das sementes secas, do pó, do extrato e de bebidas prontas.
O processo, no entanto, não eliminou a importância da produção local. Ao contrário, Maués permaneceu como uma das principais referências da cultura do guaraná no Amazonas. O município passou a concentrar produtores, áreas de cultivo, beneficiamento e iniciativas de pesquisa relacionadas à planta.
Maués e a produção de guaraná no Amazonas
O cultivo do guaraná se tornou uma das atividades agrícolas mais importantes do município. A produção é realizada principalmente por pequenos agricultores, em propriedades que também podem reunir outras culturas e atividades de subsistência.
A importância econômica do fruto está relacionada não apenas ao valor obtido com a venda das sementes, mas também ao trabalho envolvido em todas as etapas da cadeia produtiva. O agricultor precisa cuidar das mudas, conduzir o plantio, controlar doenças e pragas, colher os frutos e realizar o beneficiamento antes da comercialização.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontam Maués como o maior produtor de guaraná do Amazonas. Na produção estadual de 2025, o instituto registrou 904 toneladas colhidas em 3.641 hectares, com valor de produção de R$ 41,139 milhões. Os números mostram a permanência do guaraná como uma cultura relevante para a agricultura amazonense.
A produção, contudo, está sujeita a variações climáticas, problemas fitossanitários, custos de transporte e oscilações de mercado. Como ocorre com outras atividades agrícolas do interior da Amazônia, a distância dos grandes centros consumidores pode elevar as despesas e dificultar o escoamento.
A contribuição da pesquisa científica
A expansão e a continuidade da guaranaicultura em Maués também estão ligadas ao trabalho de instituições de pesquisa. A Embrapa Amazônia Ocidental desenvolve estudos sobre técnicas de plantio, adubação, manejo, produtividade e controle de doenças.
Um dos principais desafios enfrentados pelos produtores é a antracnose, doença causada por um fungo que pode comprometer folhas, ramos e frutos. A ocorrência do problema levou pesquisadores a buscar materiais genéticos mais resistentes e adaptados às condições da região.
Esse trabalho resultou no desenvolvimento e na seleção de cultivares e clones de guaranazeiro, entre eles materiais associados ao Amazonas e ao próprio município de Maués. A pesquisa procura aumentar a produtividade, reduzir perdas e oferecer alternativas aos agricultores sem romper com a adaptação da cultura ao ambiente amazônico.
A atuação científica também ajuda a registrar características do guaraná produzido na região. Estudos sobre genética, composição química e desempenho agronômico mostram que diferentes variedades podem apresentar características distintas, o que influencia tanto o cultivo quanto o uso industrial.
O fruto que virou símbolo de identidade local
Em Maués, o guaraná está presente na imagem pública do município, no calendário cultural e na identidade de seus moradores. A cidade é frequentemente chamada de Terra do Guaraná, expressão que resume a ligação entre o território, os agricultores e o povo Sateré-Mawé.
A festa dedicada ao fruto também contribui para essa projeção. O evento reúne atividades culturais, apresentações e ações relacionadas à produção local, funcionando como espaço de celebração e divulgação da identidade do município.
O guaraná ainda aparece na gastronomia, no artesanato, no turismo e na produção de itens comercializados por empreendedores locais. Para além das bebidas conhecidas nacionalmente, o fruto pode ser encontrado em pó, bastão, doces, preparações alimentícias e produtos de valor agregado.
Reconhecimento como Capital Nacional do Guaraná
O reconhecimento oficial de Maués ocorreu com a publicação da Lei nº 15.216, de 22 de setembro de 2025. A norma estabeleceu que o município amazonense é a Capital Nacional do Guaraná. O texto legal é objetivo e não cria um programa específico de investimentos ou metas de produção; trata-se de um título honorífico.
A decisão formalizou uma reputação que já existia no imaginário brasileiro e no setor agrícola. Maués era reconhecida há décadas como uma das principais áreas produtoras e como um centro tradicional da cultura do guaraná. A lei passou a registrar essa condição no âmbito nacional.
O título também reforça a necessidade de preservar os conhecimentos indígenas associados ao fruto. A história do guaraná não começa com a indústria nem com a transformação da semente em bebida comercial. Ela está ligada aos povos que identificaram, cultivaram e desenvolveram formas próprias de utilizar a planta na Amazônia.
Por que Maués ficou conhecida nacionalmente
A projeção nacional de Maués resulta da combinação de fatores. O primeiro é a origem indígena do cultivo na região, especialmente a relação com os Sateré-Mawé. O segundo é a importância agrícola do município, que se consolidou como principal produtor de guaraná do Amazonas. O terceiro é a presença de pesquisas e tecnologias voltadas para melhorar a produção.
Também contribuem para essa notoriedade o uso industrial do fruto, a realização de eventos culturais e a associação do nome Maués ao guaraná comercializado no país. Com o reconhecimento legal de 2025, a cidade passou a ter ainda mais visibilidade como referência nacional da cultura.
Assim, a história de Maués e do guaraná é formada por diferentes camadas: o conhecimento indígena, a agricultura familiar, a economia regional, a pesquisa científica e a cultura popular. O fruto que ganhou espaço em todo o Brasil continua ligado ao território onde foi domesticado e transformado em parte essencial da identidade amazônica.





