segunda-feira, 28 de setembro de 2026
MANCHETES

Conheça iniciativas que valorizam os saberes das comunidades tradicionais no Amazonas

Iniciativas desenvolvidas no Amazonas mostram como os saberes das comunidades tradicionais contribuem para a preservação cultural, a gestão dos territórios, a geração de renda e a formulação de políticas públicas.

Os saberes das comunidades tradicionais no Amazonas estão presentes na forma de cultivar a terra, manejar os rios, identificar espécies da floresta, produzir artesanato, cuidar da saúde e transmitir histórias, línguas e rituais entre gerações. Esse conhecimento é construído no cotidiano e está diretamente ligado aos territórios ocupados por povos indígenas, ribeirinhos, extrativistas e outros grupos tradicionais.

Nos últimos anos, diferentes iniciativas passaram a reconhecer esse patrimônio como parte da cultura, da ciência e das estratégias de conservação da Amazônia. As ações incluem inventários culturais, projetos de documentação, fortalecimento de cadeias produtivas, revitalização de línguas indígenas, formação comunitária e integração entre conhecimento tradicional e políticas públicas.

Mais do que registrar práticas, essas iniciativas ajudam a ampliar a autonomia das comunidades e a dar visibilidade a conhecimentos que, durante muito tempo, foram tratados como secundários diante dos modelos acadêmicos ou econômicos convencionais.

Patrimônio imaterial reúne línguas, rituais e modos de fazer

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece que o patrimônio cultural imaterial do Amazonas está profundamente relacionado à presença indígena no estado. A instituição informa que a região reúne mais de 120 mil indígenas, pertencentes a 66 etnias e falantes de 29 línguas distintas.

Entre as ações de reconhecimento está o levantamento de referências culturais no Alto Rio Negro, em um percurso entre Iauaretê e Manaus. O trabalho contribuiu para o registro da Cachoeira de Iauaretê, considerada lugar sagrado pelos povos indígenas dos rios Uaupés e Papuri, e do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro.

O sistema agrícola envolve conhecimentos sobre o manejo dos espaços, a diversidade das plantas, os utensílios utilizados no processamento dos alimentos e as práticas que estruturam a alimentação das comunidades. O registro ajuda a reconhecer que a agricultura tradicional não se resume à produção de alimentos: ela também envolve memória, organização social, espiritualidade e relação com o território.

O Iphan também apoiou projetos voltados à documentação de técnicas artesanais e conhecimentos utilizados por comunidades ribeirinhas das reservas Mamirauá e Amanã. Outra iniciativa registrou os sistemas agrícolas do Rio Negro, enquanto um projeto no Médio Juruá documentou, por meio de relatos e imagens, os saberes culturais de populações extrativistas.

Há ainda ações de documentação linguística e cultural do povo Tuyuka. O objetivo é registrar a língua em diferentes contextos de uso, com falantes de idades e origens diversas. A medida contribui para preservar formas de comunicação e de transmissão de conhecimentos que dependem da convivência entre gerações.

As informações sobre essas ações estão reunidas na página do Iphan no Amazonas.

Conhecimento tradicional orienta o manejo do pirarucu e de produtos da floresta

O projeto Arapaima: Redes Produtivas é um exemplo de iniciativa que associou conhecimentos comunitários à conservação ambiental e à geração de renda. Executado no médio Juruá e no médio Solimões, o projeto alcançou populações de seis Terras Indígenas, duas Reservas de Desenvolvimento Sustentável e uma Reserva Extrativista no Amazonas.

As ações foram organizadas em torno do manejo pesqueiro, do uso sustentável de produtos florestais não madeireiros e do fortalecimento de associações indígenas e de produtores extrativistas. O trabalho teve como referência práticas já desenvolvidas pelas comunidades e buscou aprimorar a gestão dos recursos naturais sem romper com a experiência acumulada nos territórios.

Um dos destaques foi o manejo do pirarucu. A contagem dos peixes combina metodologia própria com a observação de pescadores experientes. Como o pirarucu precisa subir à superfície para respirar, os moradores conseguem identificar a quantidade e o tamanho aproximado dos animais em determinado lago ou trecho de rio.

Segundo os dados apresentados pelo Fundo Amazônia, o projeto realizou 13 oficinas de capacitação em contagem de pirarucu, com 430 pessoas treinadas. Também foram promovidas atividades sobre beneficiamento, armazenamento, equipamentos de pesca e legislação.

O projeto apoiou ainda cadeias relacionadas à andiroba, ao murumuru e a outros produtos florestais. Em Carauari, foram construídos galpões de secagem de sementes e unidades de secagem familiar. As atividades de capacitação abordaram coleta, extração de óleos vegetais, manejo extrativista, cestaria e artesanato produzido por mulheres Deni.

Os resultados registrados pelo Fundo Amazônia apontam que a receita obtida com a pesca manejada do pirarucu chegou a R$ 1,56 milhão em 2018, acima da meta de R$ 292 mil. O volume comercializado alcançou 291 toneladas, enquanto a meta era de 73 toneladas. O projeto também informou ter beneficiado 6.188 pessoas, das quais 4.626 indígenas.

Os números não representam apenas desempenho econômico. Eles mostram como o conhecimento tradicional pode fazer parte de modelos de produção que valorizam o controle comunitário, a conservação dos recursos e a permanência das populações em seus territórios.

Língua Kokama é fortalecida com participação de crianças e anciãos

A transmissão da língua é uma das principais formas de preservar a identidade de um povo. No Alto Solimões, o povo Kokama desenvolve ações voltadas à revitalização do idioma e à manutenção de espaços comunitários de aprendizagem.

O projeto Ninho de Língua e Saberes Ancestrais promoveu atividades envolvendo crianças, mães, avós, professores e outros integrantes da comunidade. A proposta combina a transmissão da língua com o fortalecimento de referências culturais e a organização de artefatos produzidos pelo povo Kokama.

As ações também estão relacionadas ao Centro de Ciências e Saberes Tradicionais Kokama Lua Verde, criado em Santo Antônio do Içá, no Amazonas. O espaço funciona como local de encontro e de valorização da memória coletiva.

De acordo com informações divulgadas pelo Ministério dos Povos Indígenas, o movimento de revitalização da língua também se relaciona à formação de professores indígenas do Alto Solimões. A proposta é contribuir para uma educação escolar específica, diferenciada e vinculada às expectativas das próprias comunidades.

Esse tipo de iniciativa amplia o papel da escola. Em vez de afastar os estudantes de seus modos de vida, a educação passa a incorporar a língua, a história e os conhecimentos tradicionais como elementos centrais do processo de aprendizagem.

Projetos aproximam ciência, saúde e conhecimentos comunitários

A aproximação entre ciência acadêmica e saberes tradicionais também aparece em projetos de pesquisa, formação profissional e atendimento em saúde. A proposta não é substituir um conhecimento pelo outro, mas criar formas de diálogo que respeitem a experiência das comunidades e as especificidades de cada território.

Uma publicação da Fiocruz Amazônia relata experiências de formação de trabalhadores da saúde em contato com comunidades indígenas e ribeirinhas. A iniciativa inclui atividades para que profissionais conheçam os modos de vida locais e compreendam como práticas culturais influenciam a relação das famílias com o cuidado, a alimentação, o ambiente e a prevenção de doenças.

Em uma experiência descrita em anais de uma mostra da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus, a chamada “Canoa dos Saberes e das Experiências” utilizou visitas domiciliares e conversas comunitárias para tratar de saúde bucal, higiene, alimentação e saneamento. O trabalho também criou espaços de troca, como a “Maloca do Conto”, onde moradores puderam compartilhar experiências e conhecimentos.

A iniciativa mostra que ações de saúde tendem a ser mais efetivas quando consideram a realidade social e cultural de quem será atendido. Em comunidades ribeirinhas, por exemplo, distância, deslocamento pelos rios, hábitos alimentares e formas tradicionais de cuidado influenciam diretamente o acesso aos serviços.

O diálogo com os saberes locais, no entanto, exige cuidado. A participação das comunidades precisa ocorrer de forma respeitosa, com consentimento e reconhecimento da autoria coletiva dos conhecimentos compartilhados.

Sociobiodiversidade cria oportunidades de renda sustentável

Outra frente de valorização dos saberes tradicionais está relacionada à sociobiodiversidade, conceito que reúne a diversidade biológica e os modos de vida de povos e comunidades que dependem da floresta e dos rios.

O projeto Prospera na Floresta, apoiado pelo Fundo Amazônia, busca fortalecer atividades produtivas sustentáveis, turismo de base comunitária e empreendedorismo ligado à sociobioeconomia em áreas protegidas do Amazonas. A iniciativa contempla comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas.

Entre as ações previstas estão o apoio a iniciativas de sociobioeconomia indígena, a formação de lideranças, o incentivo à elaboração de planos de gestão territorial e ambiental e a divulgação da economia indígena sustentável. A lógica é fortalecer atividades que gerem renda sem dissociar produção, proteção territorial e conservação da floresta.

Na prática, isso pode envolver produtos extrativistas, artesanato, alimentos, óleos vegetais, pesca manejada e experiências de turismo organizadas pelas próprias comunidades. O valor desses produtos está relacionado não apenas à matéria-prima, mas também ao conhecimento necessário para coletá-la, beneficiá-la e utilizá-la de forma adequada.

Para que esse modelo seja sustentável, especialistas e organizações comunitárias defendem que os benefícios econômicos sejam distribuídos de maneira justa e que as decisões sejam tomadas com participação efetiva dos povos envolvidos.

Valorização exige protagonismo e proteção dos conhecimentos

As iniciativas desenvolvidas no Amazonas indicam que valorizar saberes tradicionais não significa apenas registrar costumes ou transformar práticas culturais em produtos. O processo envolve reconhecer direitos, fortalecer organizações comunitárias, garantir o uso dos territórios e respeitar as formas próprias de decisão de cada povo.

Também é necessário evitar a apropriação indevida de conhecimentos sobre plantas, alimentos, técnicas de manejo, arte e medicina tradicional. Quando esses saberes são utilizados em pesquisas ou atividades econômicas, devem ser observadas regras de consentimento, proteção cultural e repartição justa de benefícios.

Outro desafio é garantir continuidade. Projetos de curta duração podem apoiar oficinas, publicações e equipamentos, mas a transmissão do conhecimento depende de ações permanentes, especialmente nas áreas de educação, cultura, saúde e proteção territorial.

No Amazonas, a valorização dos saberes comunitários aparece, portanto, em diferentes escalas: no reconhecimento de um sistema agrícola, na revitalização de uma língua, no manejo coletivo de um peixe, na documentação de técnicas artesanais e na adaptação de políticas públicas à realidade dos rios e das florestas.

Essas experiências mostram que os conhecimentos tradicionais não pertencem apenas ao passado. Eles continuam orientando decisões, sustentando economias locais e contribuindo para a conservação da Amazônia. O desafio é assegurar que esse reconhecimento ocorra com participação, respeito e benefícios concretos para quem mantém esses saberes vivos.