sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Cidades

Careiro, no Amazonas: paisagens, rios e comunidades tradicionais que moldam o município

Careiro, no Amazonas, tem sua história associada à ocupação das margens dos rios, à abertura da BR-319 e à formação de comunidades rurais e tradicionais. Com território marcado por florestas, lagos e paranás, o município preserva modos de vida diretamente influenciados pelo ciclo das águas e pelas características da Amazônia Central.

Careiro, no Amazonas, é um município onde a paisagem ajuda a explicar a história. Florestas, lagos, paranás, igarapés e áreas de terra firme convivem com estradas, ramais, assentamentos e comunidades rurais. Nesse território, conhecido também como Careiro Castanho, a vida econômica e social se desenvolveu em torno da agricultura, da pesca, do transporte e do uso dos recursos naturais.

Localizado na área de influência da BR-319, o município ocupa uma posição estratégica entre Manaus e a porção sul do Amazonas. A rodovia atravessa o território e influencia a circulação de pessoas, mercadorias e serviços. Ao mesmo tempo, grande parte da população permanece ligada a áreas rurais e a comunidades que dependem dos rios, das florestas e dos ciclos de chuva e estiagem.

Segundo o IBGE, Careiro tinha 30.792 habitantes no Censo 2022 e área territorial superior a 6 mil quilômetros quadrados. Os números ajudam a dimensionar um município extenso, de baixa densidade demográfica e com moradores distribuídos entre a sede, distritos, ramais, assentamentos e comunidades.

Uma história ligada à mudança da sede municipal

A formação administrativa de Careiro remonta à criação do município pela Lei Estadual nº 99, de 19 de dezembro de 1955. A história local, no entanto, começou antes da autonomia municipal e está relacionada à ocupação das áreas próximas aos rios e à expansão de atividades agrícolas no interior do Amazonas.

Nos primeiros anos, a sede municipal ficava em uma área sujeita às oscilações do nível dos rios. A cheia dificultava o funcionamento regular dos serviços públicos e o deslocamento entre as comunidades. Em 1977, a sede foi transferida para uma área de terra firme às margens da BR-319, no trecho que passou a ser associado ao nome Careiro Castanho.

A mudança alterou a organização do município. A nova sede passou a concentrar órgãos públicos, comércio, escolas e serviços, enquanto a população rural continuou distribuída por áreas de floresta, margens de rios e estradas vicinais. A transferência também reforçou a ligação de Careiro com a rodovia que conecta Manaus a Porto Velho.

A Câmara Municipal de Careiro registra que a transferência ocorreu porque a antiga sede estava localizada em área de várzea. O episódio é importante para compreender uma diferença frequentemente confundida: Careiro e Careiro da Várzea são municípios distintos, embora tenham origem histórica relacionada e estejam próximos geograficamente.

O território entre rios, lagos e florestas

A paisagem de Careiro não é formada por um único ambiente. O município reúne áreas de terra firme, zonas alagáveis, florestas, lagos, igarapés e cursos d’água que variam de acordo com o período do ano. O ciclo de subida e descida dos rios interfere na circulação, na produção agrícola, na pesca e na rotina das comunidades.

Entre as referências hidrográficas presentes no território estão o Paraná do Mamori e diferentes lagos e igarapés identificados em mapas oficiais. O mapa municipal do IBGE também mostra localidades rurais, assentamentos e áreas de uso comunitário espalhadas pelo município.

Esses ambientes não funcionam apenas como cenários naturais. Os rios são vias de transporte, fontes de alimento e referências para a localização das moradias. Os lagos servem à pesca e podem integrar atividades de lazer e turismo. A floresta oferece produtos extrativistas e participa da proteção dos cursos d’água, do solo e da biodiversidade.

Em muitas comunidades amazônicas, a relação com o território é marcada pela adaptação. Casas, caminhos e atividades produtivas precisam considerar a variação do nível da água, a distância até a sede e as condições de acesso durante o período de chuvas. Em Careiro, essas características aparecem na distribuição da população e na importância dos ramais e das rotas fluviais.

Comunidades rurais e modos de vida tradicionais

As comunidades de Careiro apresentam formas diversas de organização. Há agricultores familiares, pescadores, moradores de assentamentos, trabalhadores extrativistas e famílias que combinam atividades de produção para o consumo com a venda de excedentes. Em várias localidades, a associação comunitária tem papel importante na busca por serviços, equipamentos e melhorias de infraestrutura.

O modo de vida dessas populações é influenciado pelo calendário amazônico. O período de chuvas pode dificultar o transporte terrestre e alterar as condições dos ramais. A estiagem modifica o acesso a rios e lagos, enquanto a cheia pode ampliar áreas navegáveis e atingir pontos mais baixos. A produção e a circulação precisam acompanhar essas mudanças.

A presença de comunidades indígenas e tradicionais também faz parte da configuração territorial do município e da região da BR-319. O mapa estatístico do IBGE identifica aldeias, comunidades e diferentes modalidades de assentamento no território de Careiro. Esses registros mostram que a ocupação amazônica não se resume às áreas urbanas: ela inclui uma rede extensa de localidades vinculadas à floresta, à agricultura e aos rios.

As atividades tradicionais, porém, convivem com desafios. O acesso a atendimento de saúde, educação, comunicação, energia, transporte e comercialização da produção pode ser mais difícil em localidades distantes da sede. A extensão territorial e a dispersão dos moradores elevam o custo de deslocamento e tornam necessárias ações públicas adaptadas à realidade rural.

A BR-319 e a transformação da circulação

A BR-319 é uma das principais referências contemporâneas de Careiro. A rodovia liga Manaus a Porto Velho e atravessa diretamente o município, onde a sede fica no entorno do quilômetro 113. Para os moradores, a estrada representa acesso terrestre a serviços, mercados e outras cidades, mas também está associada a debates sobre conservação ambiental, fiscalização e ordenamento territorial.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes informa que a BR-319 atravessa áreas populacionais de Careiro e de outros municípios do Amazonas. Por ser uma rodovia extensa, com trechos isolados e pontos de apoio distantes, as condições de tráfego e o período do ano influenciam a viagem.

A estrada também aumenta a pressão sobre áreas de floresta e territórios ocupados por comunidades. Por isso, a discussão sobre sua manutenção e recuperação está ligada a medidas de proteção ambiental, controle do desmatamento e garantia de direitos para moradores locais. O desafio consiste em melhorar a integração regional sem desconsiderar a fragilidade dos ecossistemas e a importância dos modos de vida tradicionais.

Conservação e novas áreas protegidas

A conservação ambiental ganhou novo capítulo em setembro de 2026, quando o governo federal criou a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Canaã, localizada nos municípios de Careiro e Autazes. O Decreto nº 13.113, de 8 de setembro de 2026, estabeleceu como objetivos a proteção de ecossistemas amazônicos, da biodiversidade e dos modos de vida de populações que utilizam o território de forma sustentável.

A categoria de Reserva de Desenvolvimento Sustentável busca conciliar conservação ambiental e permanência de comunidades beneficiárias. Isso significa que a proteção não é pensada apenas como isolamento de uma área, mas também como ordenamento das atividades, valorização de conhecimentos locais e garantia de condições para a reprodução social e econômica das populações tradicionais.

Antes da criação da RDS Canaã, a região da BR-319 já reunia unidades de conservação, projetos de assentamento e áreas de uso comunitário. Em 2026, consultas públicas promovidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade discutiram novas reservas próximas à rodovia, com participação de moradores, pescadores, povos originários, associações e instituições públicas. A informação foi divulgada pelo DNIT.

Paisagem, memória e identidade local

Em Careiro, a paisagem não é separada da memória. A mudança da sede para a terra firme, a abertura e o uso da BR-319, a formação de comunidades rurais e a permanência de rotas fluviais fazem parte de uma história construída entre água e floresta.

O nome Careiro Castanho é usado para identificar o município e diferenciá-lo de Careiro da Várzea, mas a denominação oficial registrada pelo IBGE é Careiro. A distinção é importante porque os dois municípios possuem histórias conectadas, porém têm administrações, territórios e características próprias.

O município também é lembrado por áreas como o Lago do Mamori e por comunidades localizadas ao longo da BR-319. Iniciativas de turismo de base comunitária, pesca esportiva, hospedagem rural e educação ambiental aparecem em diferentes pontos da região, embora o acesso e a estrutura variem conforme a localidade. Essas atividades podem gerar renda, desde que respeitem o ambiente e sejam organizadas com participação dos moradores.

Mais do que um destino marcado por paisagens amazônicas, Careiro é um território habitado e produzido por comunidades. Seus rios orientam deslocamentos; os lagos sustentam parte da pesca; a floresta oferece recursos e proteção; e a estrada aproxima a sede de outros centros urbanos. A história do município, portanto, é resultado da convivência entre infraestrutura, natureza e modos de vida que continuam em transformação.