A história de Barcelos, no Amazonas, está ligada à ocupação do Rio Negro, à presença de missões religiosas e à formação política da região que daria origem ao atual Estado do Amazonas. Conhecido hoje como um dos principais destinos de pesca esportiva do Brasil, o município preserva marcas de diferentes períodos: a antiga Missão de Nossa Senhora da Conceição de Mariuá, a passagem pelo posto de primeira capital da Capitania de São José do Rio Negro, a reorganização administrativa no século XX e a consolidação de atividades econômicas relacionadas à pesca.
Localizado na margem direita do Rio Negro, Barcelos fica a cerca de 405 quilômetros de Manaus, segundo informações da Amazonastur. O município possui uma das maiores extensões territoriais do país. De acordo com o IBGE, a área territorial é de 122.453,454 quilômetros quadrados e a população registrada no Censo 2022 foi de 18.834 habitantes.
Da missão de Mariuá à formação de Barcelos
A origem histórica de Barcelos remonta a 1728, quando o frei carmelita Matias de São Boaventura fundou a Missão de Nossa Senhora da Conceição de Mariuá. O núcleo surgiu às margens do Rio Negro, em uma área de circulação de povos indígenas, missionários e agentes da administração colonial portuguesa.
Segundo o portal oficial de turismo do município, a missão começou com uma capela simples dedicada à Virgem Maria. A presença religiosa foi acompanhada pela criação de estruturas de apoio, como um hospital e um colégio. Em 1739, a capela passou por reforma conduzida pelo frei José de Madalena, etapa que marcou a continuidade da ocupação e da organização do povoado.
O nome Mariuá é associado à língua indígena e costuma ser interpretado como referência a um grande braço ou extensão do Rio Negro. A denominação revela a importância dos rios para a formação do lugar. Antes da existência de estradas e de uma rede de transporte terrestre, os cursos d’água eram as principais vias de deslocamento, abastecimento e comunicação na Amazônia.
Barcelos se torna vila e primeira capital da Capitania
Em 6 de maio de 1758, Mariuá foi elevada à categoria de vila e recebeu o nome de Barcelos, em referência à cidade portuguesa de mesmo nome. A mudança ocorreu no contexto da criação da Capitania de São José do Rio Negro, unidade administrativa que antecedeu o atual Amazonas.
A vila passou a exercer funções administrativas centrais na região e foi escolhida como sede da capitania. Por isso, Barcelos é reconhecida como a primeira capital da unidade política que mais tarde se transformaria no Estado do Amazonas. A informação é destacada pelo site oficial de turismo de Barcelos.
A localização às margens do Rio Negro ajudava a explicar a escolha. O município estava inserido em uma rede fluvial estratégica, conectada a diferentes comunidades e áreas do interior amazônico. Naquele período, a administração dependia do controle dos rios, da circulação de pessoas e do estabelecimento de núcleos que servissem como pontos de referência para o poder colonial.
A condição de sede administrativa, no entanto, não permaneceu definitivamente em Barcelos. Ao longo do fim do século XVIII e do início do século XIX, a sede da capitania foi transferida para o Lugar da Barra, núcleo que se desenvolveria e daria origem a Manaus. Com a mudança, Barcelos perdeu parte de sua centralidade política, embora continuasse como um município histórico do Rio Negro.
A perda da centralidade política e a reorganização administrativa
A transferência da sede administrativa alterou o papel de Barcelos na região. A cidade deixou de concentrar as principais decisões políticas da capitania e passou a enfrentar um período de menor dinamismo institucional. Mesmo assim, sua posição no Rio Negro manteve a localidade integrada às rotas fluviais e às atividades econômicas do interior.
A trajetória administrativa do município passou por mudanças ao longo do século XX. Registros históricos compilados pelo IBGE indicam alterações na organização territorial e na relação de Barcelos com municípios vizinhos. Em 1931, o município foi reorganizado, e, em 31 de março de 1938, Barcelos recebeu foros de cidade por meio de decreto-lei estadual, conforme referências históricas reunidas em bases documentais e no material institucional do município.
O prédio da prefeitura municipal também integra essa etapa de reconstrução urbana. De acordo com o portal de turismo local, a construção foi erguida em 1934, quatro anos antes de a vila ser elevada à categoria de cidade. O edifício simboliza a retomada da estrutura administrativa e permanece relacionado à memória da formação urbana de Barcelos.
A Igreja Matriz e os vestígios da formação histórica
A Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição é um dos principais marcos históricos de Barcelos. O templo está ligado à antiga missão fundada em 1728 e representa a continuidade da presença religiosa que ajudou a organizar o primeiro núcleo de ocupação.
A construção passou por reformas desde o século XVIII e é apresentada pelo município como um dos cartões-postais da cidade. Mais do que um espaço de culto, a igreja concentra parte da memória arquitetônica e social de Barcelos. Sua história está relacionada ao processo de formação do povoado, à atuação dos missionários e à consolidação da antiga vila no Rio Negro.
Ao lado da igreja e de outros espaços urbanos, a área central de Barcelos preserva referências do período em que a cidade desempenhou funções administrativas relevantes. A paisagem atual, porém, também resulta de mudanças posteriores, da expansão do município e da adaptação da vida urbana às cheias, vazantes e deslocamentos pelo rio.
O peixe ornamental e a identidade dos piabeiros
Antes de ganhar projeção internacional pela pesca esportiva, Barcelos já era conhecida pela atividade de captura e comercialização de peixes ornamentais. O município passou a ser associado a espécies como o cardinal e o acará-disco, encontrados em ambientes de água doce da região.
Os trabalhadores envolvidos nessa atividade são conhecidos localmente como piabeiros. Eles percorrem rios, igarapés e lagos em busca de peixes destinados ao comércio ornamental. A prática exige conhecimento dos ciclos das águas, dos habitats das espécies e das condições de transporte dos animais.
Na década de 1990, Barcelos chegou a ser apontada pelo município como a maior exportadora brasileira de peixes ornamentais. Essa tradição é lembrada pelo Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, conhecido como FesPob. Criado em 1º de julho de 1994, o evento homenageia os piabeiros e procura valorizar a cultura ligada à pesca ornamental.
A atividade ajudou a construir a identidade econômica e cultural de Barcelos. O município passou a ser conhecido como Terra do Peixe Ornamental, expressão que convive com a imagem mais recente de destino internacional para a pesca esportiva.
Como Barcelos se tornou referência na pesca esportiva
A pesca esportiva ganhou espaço em Barcelos por causa da combinação entre a extensa rede de rios, a diversidade de ambientes aquáticos e a presença de tucunarés de grande porte. O tucunaré-açu é a espécie mais procurada pelos praticantes, especialmente pela força do peixe e pelo tamanho que alguns exemplares podem alcançar.
O turismo oficial de Barcelos informa que a temporada de pesca esportiva ocorre, em geral, entre setembro e fevereiro. Nesse período, operadores especializados conduzem visitantes por trechos do Rio Negro, afluentes e áreas do Arquipélago de Mariuá. A atividade é praticada com regras próprias e, em muitos casos, baseada na captura e soltura dos peixes.
A pesca esportiva transformou a relação do município com o turismo. A cadeia envolve piloteiros, operadores, hospedagens, embarcações, alimentação, comércio e serviços de apoio. Os piloteiros têm papel central nas expedições porque conhecem os canais, os lagos, as áreas de pesca e as variações provocadas pelo nível dos rios.
O reconhecimento de Barcelos como destino de pesca esportiva também ampliou a projeção do município fora do Amazonas. A prefeitura e órgãos estaduais de turismo apresentam a cidade como uma referência nacional e internacional do segmento, especialmente pela pesca do tucunaré-açu em ambiente natural.
Arquipélago de Mariuá e a paisagem do Rio Negro
O Arquipélago de Mariuá é um dos principais elementos naturais associados a Barcelos. Formado por centenas de ilhas, canais, praias e lagos, o arquipélago é considerado pelo município um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, com mais de 1.400 ilhas.
A paisagem muda conforme o ciclo hidrológico. Durante a cheia, áreas de terra ficam submersas e novos caminhos se formam entre as ilhas. Na vazante, praias de areia branca aparecem e ampliam os espaços de circulação e lazer. Essa dinâmica influencia tanto a vida das comunidades ribeirinhas quanto as atividades turísticas.
A Praia Grande, localizada em frente à sede municipal, é um dos pontos mais conhecidos da cidade. O local recebe moradores e visitantes e também abriga eventos culturais e turísticos. A presença do rio, das praias e das ilhas ajuda a explicar por que a história de Barcelos não pode ser separada de sua geografia.
Conservação e os desafios da atividade turística
O crescimento da pesca esportiva aumentou a necessidade de ordenar o uso dos rios e de proteger os ambientes naturais. Em Barcelos, acordos de pesca e ações de fiscalização estabelecem regras para diferentes modalidades e procuram conciliar a atividade econômica com a conservação dos estoques pesqueiros.
Entre as medidas adotadas em áreas do município estão restrições a métodos considerados predatórios, regras para a pesca comercial e orientações para o recolhimento de resíduos produzidos pelas embarcações. A prefeitura também informa a realização de ações de fiscalização e educação ambiental em comunidades e regiões utilizadas pelas operações de turismo.
O desafio é manter a atividade como fonte de renda sem comprometer os rios, os peixes e o modo de vida das populações locais. A conservação depende da participação do poder público, das comunidades, dos operadores, dos pescadores e dos visitantes.
Uma cidade entre a história e o turismo de natureza
Barcelos reúne diferentes camadas da história amazônica. A cidade nasceu de uma missão religiosa, tornou-se vila no século XVIII, foi a primeira capital da Capitania de São José do Rio Negro e passou por transformações administrativas até alcançar a condição de cidade no século XX.
Ao mesmo tempo, desenvolveu uma identidade ligada à pesca ornamental, aos piabeiros e às comunidades ribeirinhas. Nas últimas décadas, consolidou-se como destino de pesca esportiva, especialmente por causa do tucunaré-açu e do ambiente formado pelo Rio Negro e pelo Arquipélago de Mariuá.
Essa combinação explica a importância de Barcelos no Amazonas. O município não é apenas um ponto de passagem para pescadores esportivos. É também um lugar de memória, de circulação fluvial, de patrimônio religioso e de relações econômicas construídas ao longo de quase três séculos de história.