Coari ocupa uma posição estratégica no Amazonas por combinar uma extensa área territorial, abundantes recursos naturais e uma atividade energética que tem impacto em toda a economia estadual. Localizado na região do médio Solimões, o município abriga a Província Petrolífera de Urucu, uma das principais áreas terrestres de produção de petróleo e gás natural do Brasil.
A força econômica de Coari, entretanto, não se resume à extração de hidrocarbonetos. A vida do município também depende dos rios, lagos, florestas, pesca, agricultura, comércio, transporte e serviços públicos. Essa combinação ajuda a explicar por que a cidade se tornou um dos principais centros do interior amazonense, embora enfrente os desafios comuns a uma economia distante dos grandes mercados e dependente da logística fluvial e aérea.
Localização e dimensão territorial
Coari está situada às margens do rio Solimões, em uma área marcada por rios, lagos, igarapés e extensas zonas de floresta. De acordo com o IBGE, o município possui área territorial de 57.894,132 quilômetros quadrados. No Censo 2022, registrou 70.616 habitantes.
O território amplo e a baixa densidade demográfica influenciam diretamente a organização econômica e social local. Muitas comunidades estão espalhadas ao longo das calhas dos rios e dependem do transporte fluvial para acessar escolas, unidades de saúde, mercados, serviços bancários e equipamentos públicos. A distância entre a sede municipal, as comunidades rurais e as áreas de produção também eleva custos e dificulta o escoamento de mercadorias.
A posição no Solimões, por outro lado, oferece uma conexão natural com outros municípios da região e com Manaus. O rio funciona como via de transporte de pessoas, alimentos, combustíveis, equipamentos e produtos agrícolas, além de ser essencial para a pesca e para o cotidiano das populações ribeirinhas.
Da economia extrativista à produção de petróleo e gás
Como ocorreu em diferentes áreas da Amazônia, a história econômica de Coari foi marcada por atividades extrativistas. A coleta de produtos florestais, a pesca e a agricultura de subsistência formaram durante décadas a base da sobrevivência das comunidades. A exploração da borracha e, posteriormente, da castanha também fez parte dos ciclos econômicos que influenciaram a ocupação regional.
Essa trajetória começou a mudar com a identificação e o desenvolvimento de reservas de petróleo e gás natural na região de Urucu, localizada no território de Coari. A exploração de hidrocarbonetos levou novos investimentos, ampliou a circulação de trabalhadores e equipamentos e criou uma cadeia de serviços associada à operação de poços, unidades de processamento, transporte e manutenção.
A presença da Petrobras em Urucu consolidou Coari como referência da produção de petróleo e gás em terra na Amazônia. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mantém dados públicos sobre a produção nacional e permite consultar informações por estado, bacia, empresa e campo por meio de seu sistema de dados de exploração e produção.
A atividade petrolífera também alterou a escala da economia municipal. Além da extração, passou a demandar transporte especializado, obras de infraestrutura, alimentação, hospedagem, comércio, serviços técnicos e mão de obra. Parte desse movimento ocorre diretamente no município; outra parte se distribui por Manaus e por cidades situadas ao longo das rotas fluviais e do sistema de dutos.
Urucu e a importância do gás natural
O gás natural produzido em Urucu ganhou importância não apenas como recurso comercial, mas também como fonte de energia para o Amazonas. A construção do sistema de transporte Urucu-Coari-Manaus permitiu levar o combustível da área produtora até a capital e municípios situados no trajeto.
Segundo informações reunidas pela ANP, o sistema possui cerca de 662 quilômetros de dutos. O trecho entre Urucu e Coari tem aproximadamente 279 quilômetros, enquanto o gasoduto Coari-Manaus soma 383 quilômetros. A operação teve início em 2009.
O gasoduto ampliou a integração energética do Amazonas e reduziu a dependência de combustíveis líquidos em parte da geração de energia. A estrutura também criou condições para o fornecimento de gás natural a termelétricas e para o atendimento de consumidores ao longo do percurso, de acordo com a configuração do sistema de transporte e os ramais de entrega.
Para Coari, a infraestrutura representa uma ligação permanente entre a área de produção, a sede municipal, Manaus e outros pontos do estado. Ela reforça o papel do município como elo logístico e energético, mesmo estando localizado em uma região de acesso complexo e distante dos grandes centros industriais do país.
Recursos naturais além do petróleo
As riquezas naturais de Coari incluem um conjunto de ambientes amazônicos que sustenta atividades econômicas e modos de vida tradicionais. Os rios e lagos oferecem pescado, água e rotas de deslocamento. A floresta fornece frutos, sementes, fibras, madeira e outros produtos que podem ser utilizados de forma sustentável, desde que respeitados os limites ambientais e as regras de manejo.
A pesca possui importância econômica e alimentar para as comunidades ribeirinhas. Ela abastece famílias, feiras e mercados locais, além de movimentar pequenas cadeias de transporte, conservação e comercialização. Como os estoques pesqueiros variam conforme o ciclo das águas e a pressão de captura, a atividade depende de fiscalização, organização comunitária e medidas de proteção dos períodos reprodutivos.
A agricultura também faz parte da economia municipal. Em áreas rurais e comunidades, famílias produzem mandioca, banana, frutas regionais, hortaliças e outros alimentos destinados ao consumo próprio e aos mercados locais. A produção pode contribuir para a diversificação econômica, sobretudo quando recebe assistência técnica, crédito, armazenamento e melhores condições de transporte.
O potencial da sociobiodiversidade é outro ativo relevante. Produtos como açaí, castanha, óleos, sementes e frutos amazônicos podem gerar mais renda quando são beneficiados no próprio município. Transformar matéria-prima em polpas, óleos, farinhas, doces ou outros produtos aumenta o valor agregado e reduz a dependência da venda de itens sem processamento.
Impacto sobre o Produto Interno Bruto
A exploração de petróleo e gás ajuda a explicar o peso de Coari na economia do Amazonas. Os dados do IBGE mostram que o município apresenta um Produto Interno Bruto per capita elevado em comparação com muitos municípios do interior, embora esse indicador não represente sozinho a distribuição de renda nem as condições de vida de toda a população.
A indústria extrativa influencia a arrecadação pública e movimenta fornecedores, prestadores de serviços e trabalhadores. Também gera receitas associadas às atividades de exploração e produção, conforme as regras legais aplicáveis ao setor. Esses recursos podem financiar obras, saúde, educação, infraestrutura e programas públicos, mas sua conversão em melhoria permanente depende de planejamento, transparência, controle e capacidade administrativa.
Ao mesmo tempo, a presença de uma atividade de grande escala não significa que todos os moradores tenham acesso direto aos empregos ou aos benefícios gerados. A indústria de petróleo e gás exige qualificação específica e utiliza cadeias de fornecimento que muitas vezes envolvem empresas de outras cidades. Por isso, a economia local precisa combinar a atividade energética com políticas de formação profissional, apoio ao empreendedorismo e estímulo à produção rural.
Desafios ambientais e econômicos
A produção de petróleo e gás em uma área de floresta exige controle ambiental permanente. A abertura de acessos, a instalação de equipamentos, o transporte de insumos e a operação dos poços precisam obedecer a regras de licenciamento, monitoramento e recuperação de áreas. A Petrobras informa que mantém ações de reflorestamento e conservação na região de Urucu, mas a avaliação de resultados deve considerar dados técnicos, fiscalização dos órgãos competentes e transparência das informações.
O desafio ambiental é acompanhado por uma questão econômica: como transformar uma riqueza não renovável em desenvolvimento duradouro. Petróleo e gás possuem produção limitada e estão sujeitos a variações de preço, custos operacionais, decisões empresariais e mudanças na matriz energética. Uma economia excessivamente dependente desse setor pode ficar vulnerável quando a produção cair ou quando houver redução da demanda por combustíveis fósseis.
A diversificação aparece, portanto, como uma necessidade estratégica. Pesca manejada, agricultura familiar, fruticultura, turismo de natureza, bioeconomia, serviços, comércio e pequenas agroindústrias podem complementar a renda gerada pela indústria extrativa. Para isso, são necessários logística adequada, internet, energia confiável, capacitação, acesso a crédito e políticas de comercialização.
Coari no futuro do Amazonas
Coari reúne características que ajudam a compreender os dilemas do desenvolvimento amazônico. O município possui recursos energéticos relevantes, grande extensão territorial, biodiversidade e uma população distribuída entre a sede e comunidades rurais. Ao mesmo tempo, enfrenta custos logísticos elevados, dependência do transporte fluvial, desigualdades de acesso a serviços e a necessidade de proteger ambientes essenciais para a vida local.
A importância econômica de Coari para o Amazonas está ligada, em primeiro lugar, à produção de petróleo e gás natural e à infraestrutura que conecta Urucu a Manaus. Mas sua relevância também vem da capacidade de reunir diferentes formas de riqueza: a energia do subsolo, a produção dos rios, os recursos da floresta e o trabalho de agricultores, pescadores, comerciantes e prestadores de serviços.
O futuro do município dependerá da capacidade de usar essas riquezas com planejamento e responsabilidade. A atividade petrolífera continuará sendo uma referência, mas a consolidação de uma economia mais equilibrada exigirá investimentos em pessoas, tecnologia, produção local e conservação ambiental. Nesse processo, Coari poderá ampliar seu papel como centro econômico do Solimões sem perder a relação histórica com os rios e a floresta que definem sua identidade.