sábado, 10 de outubro de 2026
Cidades

Parintins: como a cidade se transforma durante o Festival de Parintins

Parintins se transforma durante o Festival de Parintins. Ruas, bairros, comércio e moradores passam a viver a rivalidade entre Caprichoso e Garantido, em uma festa que nasceu das apresentações de boi-bumbá e se tornou uma das principais expressões culturais do Amazonas.

Parintins, no Amazonas, muda de aparência, rotina e ritmo durante o Festival de Parintins. À medida que se aproxima o período da disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido, a cidade passa a ser ocupada por cores, símbolos, ensaios, toadas e preparativos que envolvem moradores, artistas, trabalhadores e torcedores.

A transformação não se limita ao Bumbódromo, arena onde os bois se apresentam. Ela alcança bairros, ruas, estabelecimentos comerciais, espaços culturais e áreas de convivência. Em Parintins, o festival é uma manifestação que combina competição artística, tradição familiar, religiosidade popular, referências indígenas e afro-amazônicas e forte participação da comunidade.

Realizado tradicionalmente no fim de junho, o evento é organizado em torno de três noites de apresentações. De um lado está o Boi-Bumbá Caprichoso, associado às cores azul e branca. Do outro, o Boi-Bumbá Garantido, identificado pelo vermelho e branco. A rivalidade entre os dois grupos estrutura a vida cultural da cidade durante boa parte do ano e atinge seu ponto máximo no festival.

Uma tradição que começou nas ruas

Antes de ocupar uma arena especialmente construída para a disputa, as apresentações dos bois aconteciam nas ruas de Parintins. A história oficial do festival está ligada à criação, em 1965, do Festival Folclórico de Parintins pela Juventude Alegre Católica, conhecida pela sigla JAC. Naquele período, a manifestação ainda tinha uma dimensão mais comunitária e dependia diretamente da mobilização dos moradores.

O Boi-Bumbá Garantido reconhece 1913 como o ano oficial de sua fundação, embora não existam registros oficiais completos sobre aquele momento. A agremiação atribui sua criação a Lindolfo Monteverde e mantém a relação histórica com a Baixa do São José, área tradicional do boi vermelho e branco. A trajetória do Caprichoso, por sua vez, está associada à tradição dos bois que brincavam em bairros de Parintins e à formação de uma identidade própria em torno das cores azul e branca.

O enredo central do boi-bumbá tem origem no auto do boi, narrativa popular que envolve personagens como o boi, o vaqueiro, a mulher grávida, o fazendeiro e o pajé. Em Parintins, esse núcleo foi ampliado e passou a incorporar lendas amazônicas, rituais indígenas, figuras típicas regionais e temas ligados à história e à diversidade cultural da região.

O Bumbódromo como novo centro da festa

O crescimento das apresentações levou à necessidade de criar um espaço específico para a disputa. Em 1988, foi inaugurado o Bumbódromo de Parintins, arena dividida visualmente entre os lados azul e vermelho. O local passou a concentrar o espetáculo principal e se tornou um dos símbolos mais conhecidos da cidade.

A construção do Bumbódromo marcou uma mudança importante. A festa, que antes se espalhava principalmente pelas ruas, ganhou uma estrutura voltada para grandes cenários, alegorias, efeitos de iluminação, coreografias e apresentações organizadas segundo regras próprias. A arena também consolidou a profissionalização de uma atividade que continuou profundamente ligada ao trabalho comunitário.

O espaço não eliminou a presença do festival nas ruas. Pelo contrário, a programação dos bois inclui ensaios, celebrações, cortejos e eventos que mobilizam diferentes áreas de Parintins. A arena é o ponto alto da competição, mas a cidade inteira participa da construção do espetáculo.

Quando as cores passam a ocupar Parintins

A transformação visual de Parintins começa antes das noites oficiais do festival. Bandeiras, faixas, pinturas e peças decorativas passam a identificar a preferência dos moradores e dos estabelecimentos. O azul do Caprichoso e o vermelho do Garantido formam uma espécie de mapa afetivo da cidade, no qual ruas e bairros também carregam referências à história dos bois.

A divisão de cores expressa uma rivalidade cultural, mas não corresponde a uma separação absoluta da vida cotidiana. Famílias podem reunir torcedores de lados diferentes, enquanto trabalhadores e artistas atuam na preparação da festa independentemente da associação que defendem. A competição é intensa dentro da arena, mas a realização do festival depende de uma ampla rede de pessoas.

Artistas plásticos, escultores, costureiras, cenógrafos, músicos, dançarinos, produtores, técnicos, comerciantes e trabalhadores de serviços participam da preparação. Parte desse trabalho ocorre longe dos olhos do público, em galpões e espaços de produção onde são confeccionadas alegorias, fantasias e adereços que serão apresentados durante as três noites.

O espetáculo reúne música, narrativa e memória

As apresentações dos bois são conduzidas pelas toadas, nome dado às músicas que organizam a experiência do boi-bumbá. Elas acompanham a entrada das alegorias, as coreografias e a evolução dos itens que compõem o espetáculo. Cada boi apresenta um projeto artístico próprio, com temas e subtemas desenvolvidos ao longo do festival.

Entre os elementos avaliados estão personagens, grupos musicais, figuras típicas, lendas amazônicas, rituais indígenas, alegorias e a participação das galeras, como são chamadas as torcidas que ocupam as arquibancadas. A apresentação não é apenas um desfile de estruturas cenográficas. Ela combina música, encenação, dança, narrativa e efeitos visuais para construir uma interpretação da Amazônia.

Essa interpretação também envolve disputas de memória e identidade. Os bois apresentam histórias sobre povos originários, comunidades tradicionais, religiosidade, natureza, ancestralidade e formação social da região. Ao levar esses temas para a arena, o festival transforma referências locais em uma linguagem artística acompanhada por públicos de diferentes partes do Brasil.

Bairros, torcidas e pertencimento

A relação entre os bois e os bairros é uma das marcas da vida cultural de Parintins. O Garantido tem sua referência histórica na Baixa do São José, enquanto o Caprichoso mantém vínculos com áreas tradicionalmente associadas à sua trajetória. Esses espaços funcionam como pontos de memória e pertencimento para as torcidas.

Durante o período do festival, ensaios e eventos de rua reforçam essa ligação. As músicas são ouvidas em diferentes partes da cidade, e as torcidas acompanham as atividades dos bois com uma participação que vai além do momento da apresentação oficial. A preparação é parte da experiência: aprender as toadas, confeccionar adereços, acompanhar ensaios e organizar caravanas fazem parte da rotina dos torcedores.

Na arena, a participação das galeras segue regras específicas. As torcidas incentivam o próprio boi, mas não devem se manifestar durante a apresentação do boi contrário. Esse silêncio organizado é uma característica da disputa e contribui para a construção do ambiente de competição.

O impacto sobre a rotina e a economia local

Durante o festival, Parintins recebe visitantes e amplia a circulação de pessoas em hotéis, restaurantes, lojas, embarcações e serviços de transporte. O comércio passa a trabalhar com produtos ligados aos bois, enquanto trabalhadores temporários e prestadores de serviço encontram novas oportunidades relacionadas à programação.

A movimentação também altera a rotina dos moradores. Áreas de circulação ficam mais ocupadas, o fluxo de visitantes aumenta e os espaços públicos recebem atividades culturais. O município precisa organizar serviços, segurança, transporte, atendimento ao público e estrutura para receber a programação dentro e fora do Bumbódromo.

Esse movimento ajuda a explicar por que o festival é tratado como um evento cultural e econômico de grande alcance no Amazonas. Ainda assim, sua importância não se resume ao número de visitantes ou ao volume de negócios. Para os moradores, a festa está ligada à continuidade de uma prática transmitida entre gerações e à possibilidade de afirmar uma identidade construída em torno da cultura amazônica.

Uma cidade que se reinventa sem deixar de ser a mesma

A cada edição, Caprichoso e Garantido renovam cenários, músicas, figurinos e temas. Essa busca por novidade modifica a escala do espetáculo, mas não elimina os vínculos com a tradição. O festival se reinventa justamente ao combinar elementos permanentes, como o auto do boi e a rivalidade entre as torcidas, com novas interpretações sobre a Amazônia.

Por isso, a transformação de Parintins durante o festival é física e simbólica. A cidade muda suas cores, amplia seus sons e reorganiza parte de sua rotina, mas também reafirma memórias coletivas. A arena, os bairros, os galpões de produção e as ruas formam um único circuito cultural.

Ao final das três noites, a apuração define o boi vencedor daquela edição. Mas a permanência do festival não depende apenas do resultado. Todos os anos, a preparação recomeça, novas gerações assumem funções e a cidade volta a se organizar em torno de uma tradição que ultrapassou as apresentações de rua para se tornar uma das principais expressões populares do Amazonas.

É essa combinação entre competição, trabalho coletivo e identidade que explica a força do Festival de Parintins. Durante alguns dias, Parintins se transforma em palco. Ao mesmo tempo, continua sendo uma cidade que produz, celebra e transmite sua própria história.

As informações históricas sobre a criação do festival, a inauguração do Bumbódromo e a organização das apresentações foram consultadas em materiais institucionais da Prefeitura de Parintins, da Amazonastur e de órgãos culturais do Amazonas. (parintins2025.am.gov.br)